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Dirigido por Robin Hardy

Um policial viaja a uma ilha para investigar o desaparecimento de uma criança.

A minha surpresa com o desfecho, ou melhor, com o destino do personagem principal neste filme foi estragada por conta do remake com Nicolas Cage, conhecido no Brasil por “O Sacrifício” (2006). Eu nem tinha visto a versão recente, mas era tanta paródia e piada com Cage na época, denunciando o quanto o novo filme era decepcionante, que não deu pra escapar de algumas revelações que eu não deveria saber antes da hora. Mesmo assim, o final não deixou de ser chocante e o restante do filme foi uma experiência completamente diferente do que eu já vi neste gênero. O Homem de Palha é único e eu ia dizer que não irá agradar muita gente, mas eu acho que agradar nunca foi o objetivo.

Na Escócia, um policial recebe uma carta pessoal relatando o desaparecimento de uma menina, em uma ilha particular muito distante do resto do país. O sargento Howie então segue para o local usando um pequeno avião e encontra uma comunidade de agricultores muito excêntrica. Eles são super educados e prestativos a princípio, mas logo os costumes, digamos, diferentes dos nativos começam a incomodar o sargento. Ele percorre a ilha mostrando a foto da pequena Rowan Morrison pra todo mundo, mas ninguém se lembra dela, nem mesmo a mãe da criança e autora da carta que pedia ajuda. É óbvio que tem uma coisa muito errada, e a evidência está em cada depoimento de criança e adulto na ilha, que não condiz com os registros encontrados sobre a garota pelo policial.

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Este não é o primeiro terror musical que eu já vi, mas é o único que eu vi sem saber que era musical além de terror, e nem é um terror tradicional. O filme abre com uma cerimônia cristã, com todas as tradições e rituais dentro de uma igreja, onde os participantes cantam uma canção. No decorrer da história, tem tanta música pagã que o filme quase muda pra um só gênero, e não aquele com o qual estamos acostumados neste blog. Não é só o sargento Howie que entra neste mundo de valores diferentes, somos todos nós e é impressionante o quanto o filme e toda a sua esquisitice é envolvente. Tem cenas pra o público e no caso, comportamentos para Howie, que extrapolam a palavra “inapropriado”, mas que hipnotizam porque são ao mesmo tempo tudo aquilo o que já fomos como espécie e tudo aquilo que jamais estaríamos preparados para aceitar novamente.

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Se você não é um puritano como o policial Howie, acaba sendo forçado de qualque modo a se transformar no chato da história, por mais liberal que acredite ser. Os hábitos do povo da ilha são absurdos demais para que a gente deseje uma vida semelhante. Quando um ator em um filme musical começa a cantar, o sentimento da maioria dos cinéfilos é o de tédio, ainda mais se for uma música desconhecida, mas isso não é permitido em O Homem de Palha. Cada canção munida de letras incômodas e acompanhamento instrumental é um teste de tolerância para a audiência, assim como cada oferenda, medicação alternativa e cena que promova o amor livre. Dito isso, é importante ressaltar que não é um filme preconceituoso, muito pelo contrário, é uma celebração das diferenças e também das semelhanças entre duas ideias de divindade e o caminho que se percorre para honrá-las. É claro, apenas uma destas civilizações está disposta a recorrer ao sacrifício humano. Pelas observações de Howie, uma comunidade de agricultores usando comida enlatada em quase todas as refeições, denuncia um desastre na colheita anterior e a necessidade de medidas extremas para o sucesso da próxima. E a pequena Rowan? Ninguém sabe, ninguém viu!

O Lord Summerisle, interpretado por Christopher Lee, pré-Saruman, pós-diversos dráculas, carrega o nome da ilha e é o grande e despreocupado líder da população local. Irritantemente sensato, ele tem sempre uma resposta pronta tanto para as perguntas sérias quanto para as ofensivas. Conversar com o homem é ao mesmo tempo fascinante e uma perda de tempo. Um macaco velho no comando pode manipular e esconder informações, mas não é possível que todo mundo ali, inclusive as crianças consigam manter uma conspiração com tanto sucesso, passando a perna em um experiente homem da lei. O ideal para Howie seria sair da ilha e buscar reforços, já que sozinho ele não consegue encontrar a menina, ou um corpo, ou uma explicação para a carta que recebeu, se todo o perigo que sente no ar é fruto da própria imaginação. Só que um grande festival se aproxima, e ninguém pode permitir que o visitante não participe. Pra falar a verdade, colocando o risco de lado, a gente também quer que ele pague pra ver o que está por vir.

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