The_Omen_1976
Dirigido por Richard Donner

O anticristo encontra uma maneira permanente de se infiltrar em uma família poderosa.

O cinema de terror nunca foi muito gentil com a molecada, mas parece ter aceitado crianças vilãs pra valer nos anos 70. Se o pirralho não ficava possuído ou era um psicopata, ele já chegava com o próprio capeta embutido no dna. Este último é o caso de Damien, um bebê que apareceu como um milagre para, sem que a mãe saiba, substituir o filho natimorto na maternidade. Uma morte trágica seguida de uma adoção secreta seria um bom plot para um drama familiar, se as ações e decisões não tivessem sido manipuladas para servir a um propósito macabro. O pai da família (Gregory Peck), concorda com a troca de crianças porque teme pela saúde mental da esposa, já que ambos são de meia idade e filhos eram um sonho constante, mas ignora que está levando para casa o filho do diabo.

O filme não é um clássico do calibre de Rosemary ou O Exorcista, mas gerou duas sequências, um remake e é a referência para outros filmes sobre o mesmo tema. Tudo o que é necessário para uma história sobre o descendente do coisa-ruim está aqui. O ameaçador cão de guarda preto, que obviamente não pode ser um poodle. Tem a trindade numérica baseada na bíblia, assim como passagens proféticas, tem o sacrifício dos fiéis e também tem os ateus, que viram a casaca assim que o moleque os transforma em alvos. O filme só é negligente ao mostrar a participação ativa do menino nos acontecimentos, ele age e interage muito pouco no filme. Desse modo, não há como saber ao certo qual é o limite dos poderes dele. As maldades acontecem em qualquer lugar e a qualquer hora, mas mesmo com forças invisíveis trabalhando a seu favor, Damien precisa do auxílio de uma babá infernal. Essa falta de consistência me incomoda.

The OmenEra muito importante que Damien não fosse criado por uma família qualquer. Robert Thorn era um diplomata americano na itália, que por conta do trabalho e do grande vínculo de amizade com o presidente do país dele, se torna embaixador na Inglaterra. A vida de Robert e da esposa Katherine é pura ostentação, intensificada pela ambição de algum dia se tornarem presidente e primeira dama dos Estados Unidos. O filho único, seria um pequeno príncipe, amado pela inocência independente da popularidade dos pais. Os dois são pessoas inteligentes e bem protegidas e é difícil acreditar que uma pessoa tão pequena possa lhes fazer mal, mas a simples presença do menino não é algo natural. Isso às vezes é explícito, como mostrado no comportamento dos animais no zoológico, e às vezes é sutil, como o pai olhar para o menino e imediatamente sentir desejo pela esposa, ou a mãe olhar para o menino e sentir ciúme da babá.

A Profecia tem uma cena memorável que acontece na festa de aniversário de Damien, mas tem outra menos famosa que é a minha favorita. Eu adoro quando diretores de terror fingem que uma sequência terminou, mas mantém a câmera ligada, como quem diz que o que veremos a seguir não faz parte do filme, então deve ter um pé na vida real. Em um parque, um padre avisa ao embaixador sobre a verdadeira natureza do menino, mas ainda é muito cedo e não há nenhuma evidência sobre as alegações do religioso. É um bate boca que se encerra com o embaixador indo embora, e sendo ele o personagem principal, teoricamente o filme deveria acompanhá-lo partindo, ou cortar para outra cena, para outro dia, mas a sequência não acaba. A princípio, a impressão é a de que o padre irá pressentir algo malígno se aproximando antes do corte, mas não há corte. Depois, parece que ele vai apenas tomar um susto, mas a cena continua e continua, e eu juro, não é pelo desfecho fatal. É um sentimento que me apavora e me fascina ao mesmo tempo, porque o parque é público e a ação não é discreta, mas do modo como o diretor filma, parece que não tem mais ninguém vendo aquilo, nem mesmo a equipe de filmagem. Parece que é só o padre, o público e aquela força sinistra, e agora nós somos as únicas testemunhas do ocorrido, sem que a escolha fosse nossa.

The OmenOs “acidentes” no filme são muito frequentes para serem ignorados, mas a ideia de que uma simples criança tenha vindo ao mundo com a intenção de destruí-lo, é tão absurda que o embaixador está sempre alguns passos atrás de Damien, mesmo quando já suspeita dele. Profecias tem este nome porque são previsões de um futuro inevitável, mas não dá para tirar o crédito de quem planejou este futuro. Ao redor do casal-luxo, estão os que se associam para tirar vantagem política, ou para auxiliar Damien. Estes são os de sorrisos amarelos e fala mansa, enquanto que os honestos são mantidos afastados, por serem ríspidos e não se importarem com cargos e títulos. Damien não viveria com uma família humilde por dois motivos: para alcançar o seu objetivo ele precisa do dinheiro e do suporte de uma família pública… e uma família pública não pode se livrar de uma criança demoníaca sem atrair a atenção do mundo inteiro.

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