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Dirigido por David Moreau e Xavier Palud

Um casal que mora longe da cidade, acorda de madrugada com um barulho próximo da casa.

Uma produção franco-romena que faz ótimo uso do baixíssimo orçamento, sendo discreta no uso de sangue, mas conduzindo o público de uma cena tensa para outra ainda pior, sem fazer grandes revelações. Vilões sem poderes especiais, sem armas de fogo, mas cheios de disposição para brincar com suas vítimas, de um modo que somente pessoas muito ruins fazem. O filme não se encaixa na categoria “cabana na floresta” não só porque a casa é gigante, mas porque o casal Clem e Lucas não são recém-chegados descobrindo os segredos do local. Eles já moram lá há algum tempo, conhecem o território, são familiarizados com o cachorro que aparece de vez em quando e não houve nada de especial naquele dia que justificasse o mínimo de perturbação. O filme é uma lembrança que na vida real, é o vilão quem escolhe a hora, o dia e o motivo para atacar.

Eu entendo porque algumas pessoas abandonam a cidade grande para morar em um lugar mais isolado. A questão pode ser geográfica ou demográfica. Há alguns dias por exemplo, eu planejava dormir cedo, mas um vizinho tinha planos de fazer arruaça até bem tarde e o meu plano não resistiu ao plano dele, então eu me identifico com a desejo de seguir rumo à vida calma no campo. O que eu não entendo é como este sentimento pode durar mais do que uma semana! É claro que eu devo muito do meu medo do silêncio ao gosto por filmes de terror, mas não é um medo irracional. As belas paisagens do interior me despertam pensamentos positivos, até que a minha mente se lembre a que corpo pertence e questione a falta de coisas básicas, como delegacias de polícia, estradas acessíveis, ambulâncias… seres humanos.

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A história de Eles é bem simples: depois de uma sequência de abertura apavorante, conhecemos Clementine, uma professora que trabalha na cidade e Lucas, um escritor que trabalha em casa. Os dois moram em uma casa bem grande mas simples no interior da França, sem sinal de vizinhos por perto. Um barulho os acorda e eles percebem que o carro está sendo roubado, mas a ação foi uma tática de alguns marginais para tirar o único meio de transporte do caminho. O erro do casal é achar que o roubo foi o ápice dos acontecimentos da madrugada e o que resta é reclamar, mas o que vem em seguida é algo muito pior. A certeza que se instala rapidamente e de forma super plausível, é que não haverá ajuda externa e que Clem e Lucas estão por conta própria, para lidar com uma violência que chegou sem avisos e pelas mãos de estranhos encapuzados. Onde estão os celulares e as armas para a defesa do casal? Bom, em lugar nenhum, se o objetivo da compra do imóvel era o sossego.

A história se passa em um período curto, de no máximo dois dias e muitos pedaços de vida não são inseridos no filme para o melhor desenvolvimento dos personagens. Na relação vilão/mocinho, temos quase tanta informação sobre um quanto temos sobre o outro. O casal se dá super bem, mas isso não importa. Tem uma reforma acontecendo na casa, mas isso também não tem importância. O importante é que o local era considerado seguro, pelo simples fato de que nada de ruim tinha acontecido nele antes. É só isso! Algumas cenas parecem quase amadoras e demoram para se desenrolar, mas isso é fruto de sequências que acontecem quase que em tempo real, e ao contrário do que se espera, elas só aumentam o clima de nervosismo que toma conta do filme a partir daquele barulho que não podia ser ignorado.

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Depois que você assiste a Os Estranhos com a Liv Tyler, bate aquela vontade de assistir Eles ao saber que um é remake do outro, mas a história não é bem essa. Os filmes são parecidos e ambos são baseados em histórias reais. Os Estranhos teve uma história americana como inspiração e Eles se inspirou em uma história europeia. Detalhes mudam de versão para versão, de país para país, de realidade para ficção, mas o que conta é que esse tipo de crime acontece de verdade. Acontece no Brasil, fora dele, em todo lugar. Portanto, Deus abençoe meus vizinhos e toda a falta de educação deles. É através do barulho carinhoso, que eles me informam que se alguém tentar me atacar aqui em casa, eu mal preciso gritar, que todos me escutam, e nem preciso correr, porque a casa mais próxima é aqui do lado.

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