GirlWalks poster
Dirigido por Ana Lily Amirpour

Na cidade iraniana de Bad City, cadáveres são tão comuns, que só é necessária uma gigante cova coletiva e a céu aberto.

Atores de diversas nacionalidades falando persa, em um filme em preto e branco sobre vampiros. Não é todo dia né? A única vampira do filme é uma jovem, em aparência, fã da Madonna, o que já ganha a minha simpatia e me deixa animada para começar a assistir este filme tão comentado pela crítica, por ser uma história sobre vampiros diferente de todas que já vimos. Eu baixo a minha guarda e faço o melhor para não estranhar os costumes ou a linguagem cinematográfica. Realmente, se fizermos uma lista dos países mais divertidos para se visitar, o Irã não aparece nem perto do top dez, mas isso não quer dizer que o país não seja capaz de lançar um filme que entretenha. Assim como a falta de cor nunca foi sinônimo de filme chato, então eu afirmo que em nenhum momento me deixei levar por conceitos juvenis sobre o que faz de um filme um bom filme. Dito isso, meu Deus, que filme parado!

Arash é um jovem iraniano que cuida do pai viciado, tentando afastá-lo do traficante local. Para a sorte de Arash, Bad City também tem uma vampira, que é tão comprometida com a comunidade, que só ataca os maus elementos. Ela é o Dexter dos sangue-sugas, protegendo prostitutas tarimbadas e mantendo a molecada na linha. É uma vampira descolada, que usa jeans e camiseta por baixo do chador, anda de skate, mas ainda é uma vampira, muito misteriosa e cheia de truques sobrenaturais. Quando o traficante morre em circunstâncias incomuns, Arash se apodera de toda a mercadoria e abraça uma nova ocupação. Ninguém sentirá falta do morto, ninguém se importa não só por ele ser um lixo, mas porque em Bad City, a morte é muito comum, mesmo que não seja natural.

GirlWalks 2Olhos expressivos são o requisito mais importante que os atores deste filme precisam possuir. Para emuldurá-los, uma fotografia impecável, que também permite que grande parte da história seja contada através de imagens. Algumas cenas do filme são inesquecíveis, como a do segundo encontro entre Arash e a garota, que pode ser interpretado como o primeiro encontro de verdade, já que na primeira vez, Arash tinha um carro para recuperar e a garota tinha um corpo para abandonar. Em uma noite qualquer, ela anda de skate pelas ruas escuras até ver Arash drogado, encantado com a luz do poste. Ele não é um santo e não deveria ser poupado da morte, mas naquele momento ele era o mais vulnerável dos moradores e seus gestos e poucas palavras eram gentis e sinceros. Ela viu quem ele era de verdade e com a cautela dos que tem muitos anos de vida, a garota cede a um humano imperfeito. No final do filme, acontece o contrário. Arash aprende que nem todos os monstros são vilões. Resta descobrir se ele é forte o suficiente para viver com um destes monstros.

O Irã que a diretora estreante mostra no filme, está um pouco distante do que vemos no noticiário, mas eu me arrisco a concluir que não é exatamente o Irã verdadeiro. Não é porque seja inviável a presença de traficantes, prostitutas e travestis no país, mas porque é inviável a ausência do governo. É como se todos os personagens estivessem em um mundo à parte, interpretando papéis em suas próprias vidas. A prostituta, que parece ser a única da cidade, já é uma mulher mais velha, como se o papel fosse só dela até que alguém mais jovem o assuma. O traficante também acumula a função de cafetão. Neste universo paralelo, no entanto, alguns traços do mundo real mantém as pessoas crentes na veracidade de Bad City. Um exemplo é que para uma garota se mostrar independente e sem medo, os pais dela precisam ter dinheiro, outro exemplo é que se ela não tiver dinheiro, mas quiser andar em segurança pelas ruas sozinha de noite, um direito pelo qual ninguém deveria ter que lutar, ela precisa ser uma criatura sobrenatural.

GirlWalksGarota sombria é belíssimo, os atores são muito bons, os efeitos são super discretos, o que sempre me agradou em filmes de vampiros, mas a história é arrastada demais. Jogar imagens dos campos de petróleo na minha cara, me faz entender a mensagem, mas não abraçá-la, quando o filme parece estar em câmera lenta. Eu acredito que o filme agrade muita gente, mas comigo foi uma experiência cansativa. Eu queria um pouco mais de história, queria saber mais sobre as pessoas e o local. Este terror não me deu medo, me deu sono, porque o que mostraram caberia em um curta bem legal. Talvez eu precise assistir ao filme novamente e a segunda sessão pode mudar a minha opinião, já aconteceu antes, mas eu não enfrento este filme de novo por um bom tempo.

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