Carrie
Dirigido por Brian De Palma

Uma adolescente com poderes paranormais, resolve na noite de formatura dar um basta nos abusos cometidos contra ela.

 

Carrie – A Estranha é o primeiro livro de Stephen King, um autor que já virou arroz neste blog depois de tantas aparições. O enredo é super simples. A jovem que possui telecinese, vive com a mãe que é uma fanática religiosa e sofre bullying dos colegas de classe, até que uma brincadeira cruel faz com que a garota perca o controle. Mas se é apenas uma história simplória, por que o filme é tão celebrado, tão memorável? Se você o assiste pela primeira vez, mesmo acompanhando todo o planejamento do trote que está por vir, ainda espera que um milagre, um Deus x Machina aconteça para salvar a noite de formatura. Se já viu o filme antes, gostaria de parar a história quando a garota é coroada, num impulso de terminar tudo com um final feliz, por mais que o desfecho pintado de sangue seja uma dádiva para qualquer cinéfilo que ama o terror.

Existe uma linha muito frágil que separa vilões de vítimas nesta história. O filme foi lançado antes que evitar tiroteios em escolas fizesse parte do cotidiano norte-americano. Ainda bem, pois o impacto das mortes, que sempre foi forte, causaria um boicote ao filme e iria impedir qualquer discussão séria sobre tragédias em escolas e responsabilidade coletiva. Por todo o filme, mover objetos sem tocá-los é apenas uma habilidade fascinante e a personagem principal está mais próxima de nós do que de Freddy Krueger. Não é uma vilã normal. Os poderes da adolescente dão medo da mesma forma que uma arma de fogo dá medo, assim que o objeto manifesta o uso maligno em qualquer indivíduo.

Carrie 2Carrie quer ser uma garota normal, mas ela mal tem o treino básico em normalidade. Sua fonte de informação primária é a mãe, uma maníaca que distorce os ensinamentos da própria religião, criando uma seita em casa para apenas dois membros. O filme começa mostrando o quanto Carrie é sozinha na escola. Minutos mais tarde, um incidente natural na adolescência feminina, revela o quanto ela também é privada de diálogo em casa. Se aproximando cada vez mais da maioridade, a jovem é empurrada para o mundo real e começa a questionar a doutrina fantasiosa da qual é forçada a participar. O que ela não questiona é o amor da mãe, mas deveria, mesmo que isso deixe a sua existência ainda mais difícil. Fica claro para o público que a relação entre as duas, está menos para mãe e filha e mais para um pastor tirano e uma ovelha indefesa. Com o passar dos anos, a dinâmica entre as duas naturalmente começa a mudar e isso irá trazer consequências violentas para os dois lados.

Todos os atores estão perfeitos nos papéis, entre alunos cheios de dúvidas e professores inaptos para orientá-los, com um destaque especial para Sissy Spacek no papel principal. Com seus grandes olhos azuis, que parecem ameaçadores na cena em que precisam ser e apavorados no resto do filme, a atriz retrata Carrie como uma jovem especial. Você precisa se esforçar para ouvir o que ela fala, por conta do volume quase inaudível com o qual as palavras sempre coerentes são pronunciadas. Spacek provoca uma simpatia no papel, que não é abalada nem quando os poderes são usados por raiva. A atriz Piper Laurie que interpreta a mãe também é brilhante, principalmente porque sua atuação é o oposto da de Spacek. Suas expressões exageradas só reforçam o quanto a personagem é ignorante apesar da confiança, como uma portadora de alguma espécie de doença mental, encarregada da pesada tarefa de criar outro ser humano.

Carrie 1O que o diretor Brian de Palma sempre fez muito bem em seus filmes, foi misturar o clima de suspense pelo que pode dar errado na história, com a sensação de esperança pelo que pode dar certo. São cenas que mostram as péssimas intenções de gente determinada, seguidas por cenas de alívio, que mostram possíveis soluções para os problemas. É uma atmosfera de incerteza que remakes do filme não conseguiram imitar. A solidão de Carrie acaba despertando a solidariedade de Sue, a garota mais popular da escola, que com um ato altruísta, cede o próprio par para que Carrie possa ir à formatura acompanhada. Com a ajuda de Sue, do namorado dela e de uma professora de ginástica preocupada com a situação da garota, parece que Carrie terá pelo menos uma lembrança boa ao sair da escola, porque ela merece, mas a questão do mérito nem sempre salva em filmes de terror.

Quando o golpe final é dado, não existe outra saída para Carrie a não ser agir como qualquer pessoa que perde o controle, depois de ser maltratada por anos e com uma arma poderosa nas mãos. Não há objetividade ou foco. O resultado não é justiça, é simplesmente um massacre. De Palma que conseguiu não apenas me fazer aprovar como amar um jump scare (aquele susto repentino, quase sempre desnecessário), era o diretor perfeito para a adaptação da história da literatura para o cinema, porque ele sabe que Carrie só é tão estranha quanto todos ao seu redor e porque ele entende a dimensão do estrago que os eventos provocam. Existe ajuda, mas não é o suficiente, existe uma tentativa de salvação, mas ela chega tarde, existe culpa, mas ela não é isolada. Quando o braço sai da tumba, fica claro que nem quem conseguiu escapar da matança conseguirá ser livre dela.

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