DIrigido por M. Night Shyamalan
DIrigido por M. Night Shyamalan

Dois adolescentes viajam sozinhos para conhecer os avós pela primeira vez, algo que a mãe deles nunca quis que acontecesse.

Esse é o tipo de coisa pela qual todo mundo já passou. Você planeja uma viagem por meses, ou anos, mantendo a expectativa lá no alto, sonhando com diversão e lazer, até que o dia chega e não se trata apenas de uma decepção, mas sim de um verdadeiro desastre, pela razão que for. O primeiro pensamento é o de voltar imediatamente para casa, mas e se você gastou muito tempo e dinheiro, ou pior, você não quer ferir os sentimentos daqueles que te hospedam? O jeito é se conformar com um sorriso falso no rosto, rezando para que os dias passem rapidamente e com a esperança de que tudo na vida aconteça por uma razão, como é o caso nos filmes de M. Night Shyamalan, onde as piores circunstâncias são exatamente o que o personagem precisa, antes de enxergar uma grande revelação.

Os irmãos Becca e Tyler se encontram em uma dessas enrascadas, nas quais todos entramos por conta própria, quando atendem ao pedido dos avós para uma semana de convivência. Não haveria como negar uma solicitação cheia de boas intenções e acreditem, este é o caso. A mãe deles saiu de casa na adolescência, para se casar com um homem mais velho, que posteriormente a abandonou com os dois filhos, para se casar e ter filhos com outra mulher. A briga entre a mãe e os avós foi tão feia na época, que os idosos nunca puderam conhecer os netos, ou ao menos trocar cartas como um gesto de consideração. A necessidade que os adolescentes tem de possuir uma família além da mãe, faz com que esta aproximação repentina seja muito bem vinda. É um sinal de que existe amor esperando por eles, do tipo incondicional, que nunca abandona, mesmo sem o convívio e Becca e Tyler farão o melhor que podem para merecer este amor.

The Visit 2Antes de prosseguir, eu gostaria de fazer o que todos os críticos fazem quando falam de um filme do diretor, que é registrar o quanto M. Night tem desapontado com seus últimos trabalhos. Não teria tanto problema se não fosse tão notável e se o ego do diretor não fosse o maior culpado pelo declínio na sua carreira. Depois daquela surpresa final em O Sexto Sentido, nos apaixonamos por M. Night, esperando com alegria pelo próximo filme dele. Eu gostei muito de Corpo Fechado, Sinais me entreteu, A Vila me enganou duas vezes e aí veio A Dama Na Água e Fim dos Tempos, trabalhos que reverteram o sentimento positivo pelo diretor, quando me fizeram questionar o que ele julgava ser mais importante: contar uma história com um significado, ou permanecer relevante na indústria lançando um filme cheio de estilo, mas sem pé nem cabeça a cada dois anos e se recrutando para um papel importante.

Nenhum dos filmes precisava ser como o Sexto Sentido e não foram, mas é impressionante o quanto os últimos trabalhos de M. Night, que eu nem cheguei a mencionar, são desleixados no departamento de Suspensão de Descrença. Não dava nem para curtir os filmes como passatempos leves, porque a direção tinha a seriedade de alguém que se acreditava um gênio, ainda que criando roteiros cada vez mais inverossímeis. A pretensão matou a promessa e o diretor se tornou uma piada, só que ainda trabalhava com grandes nomes e orçamentos generosos, mas eu acredito que depois de tanta porrada de profissionais do cinema e do público, cujas opiniões M. Night tentou ridicularizar em Dama Na Água, com aquele crítico que se dá mal, ele finalmente percebeu que havia realmente algo faltando em seus filmes.

A Visita, que possui o título mais humilde entre os filmes da carreira de M. Night, foi filmado no estilo documentário e não tem o menor problema em se mostrar como um falso documentário, já que possui créditos e cenas muito bem planejadas. A desculpa é que Becca quer fazer um filme independente sobre a família e a briga que a desintegrou, mas o real motivo pode ser o desejo do diretor de fazer algo mais simples, com atores desconhecidos e poucas locações, ao mesmo tempo que nos deixa perceber que não quer enganar ninguém com essa modinha de cinema verité. A Visita pode ser um marco na carreira do diretor, se ele conseguir no futuro se manter apenas atrás das câmeras e estiver disposto a realmente nos contar uma história que importa para ele. O filme está longe de ser perfeito, na verdade, ainda possui uma das mais irritantes características do diretor, que são as coincidências impossíveis que não adicionam nada a história, mas também possui as melhores características, como atores mirins competentes, terror como algo a ser superado e não temido e aquele ótimo twist do meio para o final do filme.

The VisitEu consigo identificar duas referências a outros filmes que podem ou não ser propositais. Uma delas são as letras gigantes na tela indicando os dias da semana, como em O Iluminado. É uma casa grande, arrumada, cheia de diálogo e guloseimas, mas a cada dia que passa, um dos adultos precisa arranjar uma nova explicação para a bizarrice do dia anterior. A hora de dormir é as nove e meia da noite? Bom, mas é assim mesmo em uma casa de idosos! O vovô colocou um smoking achando que tinha um compromisso de gala no meio da tarde? Ah, é só uma doideira de gente velha! A vovó vive pedindo para Becca limpar o interior do forno, entrando dentro dele? … é, nem Becca sabe o que pensar sobre isso e ela, assim como Tyler, aceitam os problemas que parecem vir com a idade, em troca de toda a atenção e carinho que estão recebendo, até que descobrem que existe uma razão para o toque de recolher. A outra referência, é que sempre que anoitece, a sensação é de que os jovens estão em perigo, como em Bruxa de Blair, outro documentário falso.

Se fosse apenas uma questão de choque de gerações, este não seria um filme de terror. É tanta gentileza, vinda de pessoas tão frágeis e genuinamente cheias de problemas de saúde, que ter medo deles é até desconfortável, mas inevitável. A Visita é um filme para roer unhas e admirar pela ousadia. Um terror diferente, muito bem conduzido, escrito com o coração, com vilões perigosíssimos e que ainda assim, respeita diversos pontos de vista. É um bom presságio, que não chega a reacender a antiga paixão pelo diretor, mas mostra que ele voltou a fazer o que gosta, com gosto.

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