Dirigido por Zachary Donohue
Dirigido por Zachary Donohue

Cyber bullying ao extremo, contra uma mulher conduzindo uma inocente pesquisa online.

The Den começa com tanta autenticidade, que eu cheguei a pensar por alguns segundos que algo estivesse errado com a cópia do filme que eu tinha em mãos, de tanto que ele “travava”. Enquanto Elizabeth, ou Liz, a protagonista do filme, tenta convencer alguns executivos a financiar sua pesquisa, via Skype é óbvio, eu me surpreendo com uma representação realista de fotos de perfil, conversas online, rejeições descompromissadas, assédio e sustos baratos. Este último, eu torço para que o resto do filme deixe de lado. A proposta de Liz é aceita e devidamente patrocinada, para que ela estude os comportamentos de estranhos de todo o mundo, quando conectados uns aos outros pela internet. O mais legal desta nova missão é que Liz pode se comunicar com todos, sem abandonar o conforto e a segurança da sua própria casa.
Se ela quiser, nem precisa tomar banho antes de começar a trabalhar e pode comer entre um diálogo e outro, usando um pijama, que não vai ter problema nenhum. O que não demora para ser notado, é que essa liberdade online é universal e nem todos os usuários desfrutam dela de uma forma saudável. Democraticamente motivada, mas longe de estar correta, Liz remove qualquer bloqueio ao acessar The Den, um site parecido com o ChatRoullet, ficando imediatamente exposta aos mais variados exibicionistas e pervertidos em posse de uma webcam. Raras são as oportunidades de realmente conhecer gente nova, ou seja, o objetivo da pesquisa, mesmo assim a jovem acaba se viciando no aplicativo e nas infinitas possibilidades de interação. Se alguém passar dos limites, ela pula a conversa para o próximo estranho. Pelo menos, é assim que é para funcionar.
the DenNa primeira parte do filme, nós ficamos com muito medo mais de uma vez, mas se trata de alarme falso. Eu acho que o aspecto mais importante, é que por mais que a gente tente antecipar os acontecimentos no filme, com base em outros que vimos com conteúdo parecido, em nenhum momento o que ocorre é previsto. Não há nada melhor em um filme de qualquer gênero do que a surpresa. The Den é uma verdadeira caixinha cheia delas e eu uso sem culpa a batida expressão dos jogadores de futebol, porque o filme merece. É claro que sendo found footage, não há como se livrar de cenas paradas e não sendo um falso documentário, certos registros com uma câmera de celular são forçados demais e indefensáveis, então, vamos estabelecer que o filme não é genial ou original, mas a habilidade do diretor de usar as expectativas do público contra o próprio público, o tempo inteiro, mostra que o filme foi feito com muito cuidado, apesar das limitações da história.
Entre os usuários de chat que cruzam o caminho de Liz, um nos chama a atenção por usar uma foto no lugar de câmera, com a desculpa de que ela está quebrada. Pensamos que este será o vilão e é a única vez no filme que não erramos, mas existe muito, muito mais por trás daquele sorriso amigável do que possamos imaginar. Quando Liz toma o seu primeiro susto no filme, é por conta de um falso, mas muito bem produzido vídeo com imagens sobrenaturais. O vídeo compartilhado pelo usuário/vilão, mostra um assassinato brutal. Parece realista e deixa na pesquisadora uma sensação de pânico bem mais duradoura. Seria falso também? Após a denúncia de Elizabeth, a polícia diz que sim e fica de mãos atadas, porém, antes que a gente embarque no plot da garota indefesa sendo perseguida por um stalker, outro vídeo surge, ainda mais bem produzido só que comprovadamente simulado. Ficamos surpreendidos novamente, a la Zagalo e eternamente confusos, a la Zagalo.
The Den 2Com tudo o que existe de falso e verdadeiro no filme, a sensação de que algo ruim está se desenrolando nos bastidores, é validada com uma sequência de eventos de pura destruição, causados com um planejamento assustador do vilão e facilitados por muito descuido dos mocinhos. Liz deixa o mundo real e passa a se comunicar apenas através da câmera, seja com estranhos, empregadores, familiares ou amigos. Vestígios de que ela não é a única a ter acesso aos próprios dados online vão surgindo. Aos poucos, cada informação transmitida por Elizabeth ou seus contatos, gera um desconforto tão grande em nós, que sombras nas paredes durante as cenas noturnas, ficam assustadoras como se o foco do filme fosse fantasmas.
Eu nunca tive nada contra slashers sem causa, mas é bom saber que este não é um deles. O filme é um aterrorizante aviso, em uma era repartida entre pegadinhas inofensivas e a imprudência na desproteção da privacidade. Liz não se desliga do mundo virtual, mesmo quando a vida dela começa a desmoronar, apesar de que esta decisão chega a ajudá-la, mas só uma vez. O contato dela com o perigo pode ter sido aleatório no início, mas o envolvimento que se seguiu não foi um acidente. Ela não era a pessoa errada na sala de bate papo errada, porque isso não existe. Uma pesquisadora neste campo deveria saber disso e quando ela percebe o quanto se arrisca, já estamos no limite da tensão, reconsiderando o número de “amigos” nas nossas redes sociais.

Advertisements