Dirigido por Lars Von Trier
Dirigido por Lars Von Trier

Um casal lida da pior forma com a morte trágica do filho.

Existem diretores polêmicos que provocam o público, quase sempre sendo banidos dos cinemas e existe Lars Von Trier, que tem a audácia de ser odiado até por seus atores e ainda se manter mainstream. Ele não é o tipo de profissional que busca inspiração naqueles que o precedem, mas não por arrogância ou falta de respeito, ele só não se interessa por métodos tradicionais de contar histórias. De uma certa forma, todos os filmes de Von Trier podem ser classificados como terror, mas este aqui é o único oficial do gênero. O que diferencia o diretor dos demais, que também são fascinados pelos aspectos mais sórdidos da natureza humana, é a excentricidade nos hábitos de filmagem, que acentuam ou isolam as decisões e impulsos dos seus personagens, deixando-os sem complicações ou muletas, aproximando-os da realidade através do estilo faz-de-conta.

Com a justificativa de que está apenas expondo a humanidade como ela é, sem julgamentos, Von Trier iniciou o Dogma 95, um movimento pela veracidade que tomou conta do cinema dinamarquês e impulsionou a carreira do diretor até os portões de Hollywood, onde ele permanece até hoje com um pé para dentro e outro para fora. Com muito mais dinheiro em caixa, Von Trier não abandonou o princípio do Dogma e já realizou o mais triste dos musicais, com a cantora Bjork como protagonista. Já debochou da nossa conduta piedosa e politicamente correta, fazendo um filme estrelado por deficientes mentais. Já aprisionou Nicole Kidman em uma cidade onde as casas não tinham paredes e na sequência de abertura de Anticristo, ele nos recebe com uma cena de sexo explícito, seguida pela morte de um bebê.

Antichrist-2O filme é dividido em capítulos, não exatamente para facilitar o entendimento. O filho morreu por um descuido dos pais e o casal passa agora pelo luto. Nem ele nem ela tem nome, porque identidade seria uma distração. Meses se passam e a mulher não consegue superar o desespero e a dor, fazendo com que o marido terapeuta ignore todas as normas e o bom senso, tomando a esposa como sua paciente. Perder um filho deve ser um horror para qualquer casal. Quando um dos pais, ou no caso do filme, ambos carregam a culpa pela negligência, é natural que a relação fique carregada de conflitos e acusações, mas o filme vai muito além do que se espera após uma tragédia deste tipo.

Pela primeira vez, as intenções do diretor não são muito claras. O mais estranho é que ele se certifica de que o público não perca nenhuma ação, nenhum detalhe do que está sendo mostrado. Algumas cenas são desaceleradas com tanto exagero que chegam a parecer imóveis, como fotografias que podem ser estudadas por um bom tempo, mesmo que você não tenha o estômago para ver o filme mais de uma vez. Distração é impossível no filme e ainda assim, Anticristo irá permanecer na mente por anos como um enigma a ser decifrado. Repulsa e encanto. Compreensão e dúvida.

Antichrist_001Existe a violência no cinema de terror, existe a violência nos terrores que são difíceis de assistir e existe a violência em Anticristo, que além se ser extremamente chocante, é sem propósito mas não sem sentido. Marido e esposa seguem para o simbólico Éden, um refúgio longe da civilização, cercado pela natureza, onde ela irá se submeter à terapia imposta por ele. Não é a primeira vez que a mulher vai para o local. Quando esteve lá com o filho ainda vivo, tinha o objetivo de escrever sobre os horrores sofridos pelas mulheres das redondezas, acusadas de bruxaria séculos antes. Isolada e sob condições precárias, a mente dela foi invadida por pensamentos perturbadores e contínuos que interromperam seus estudos. Agora, de volta a Éden, esses pensamentos são sua única fonte de conforto, forçando o marido a aceitar a fantasia como parte do tratamento.

Pode ter sido vendida como uma história sobre perda e tristeza e eu não vou negar que o filme tenha muito choro e muita raiva, só que não dá para assistir com um desejo básico e simplório de que os personagens apenas trabalhem para superar a dor, quando o Anticristo é tudo menos básico e simplório. Homem e mulher recorrem ao lugar mais clichê dos filmes de terror: uma cabana na floresta, no entanto, o perigo mora na mente. É possível, com tantas imagens assustadoras e sobrenaturais, que exista um vilão cercando os dois e orquestrando cada estágio da tortura psicológica pela qual ele e ela passam, ela principalmente, mas não há nada de terrível que este agente externo possa causar, que não seja superado pelas ações violentas do próprio casal.

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