Dirigido por Fabrice Du Welz
Dirigido por Fabrice Du Welz

Um cantor desconhecido, é sequestrado por um homem que o confunde com outra pessoa.

No minuto em que Marc descobre o papel dele no mundo, nasce um verdadeiro artista, fazendo com que o filme transcenda da categoria torture/porn, na qual se encaixa injustamente. Repleto de cenas e personagens sem nenhum compromisso com o que o resto do planeta considera normal, ou pelo menos compreensível, o filme se enche de clareza, mesmo diante de um estuprador iludido, afundando em uma poça de lama.

Marc é um cantor que não precisa se preocupar em variar o repertório, as roupas ou a coreografia a cada nova turnê. O público que ele consegue, não sendo extraordinário na sua arte, consiste em pessoas que talvez nem se lembrem dos detalhes das apresentações anteriores. Marc se apresenta para idosos, pulando de asilo em asilo por alguns euros, aliviando a solidão de alguns e alimentando sem querer as fantasias de outros. É o fim de uma carreira que nunca existiu, mas ninguém na platéia quer que Marc vá embora. Ele é um desconhecido, cheio de fãs número um.

A caminho de uma apresentação de natal, Marc se perde em uma estrada deserta no meio da floresta. Com uma chuva forte e o carro quebrado, Marc é resgatado por Boris, um sujeito esquisito, mas inofensivo, que estava perâmbulando na mata em busca da cachorra que tinha fugido. Uma cachorra estranha, sendo mais ou menos da altura do dono… e com cabelo curto, como ele a descreve. Como já está bem tarde, Boris leva Marc para uma pousada isolada e vazia, administrada pelo simpático senhor Bartel.

Calvaire 1Do ponto de vista de Bartel, a conexão entre ele e Marc é imediata. O dono do local costumava ser um comediante e é maravilhoso, depois de tanto tempo sem fregueses, ter na pousada alguém igual a ele, um membro da classe artística. A alegria é incontrolável e Bartel faz de tudo para tornar a breve estadia do cantor, o mais agradável possível. Em nenhum momento se fala em dinheiro, mas o comediante faz questão que Marc cante uma música para ele.

O veículo que Marc dirige não é bem um carro, é uma van, onde ele carrega toda a sua vida pessoal e profissional. A única explicação que eu vejo, para o rapaz não sair correndo pela floresta ao primeiro sinal de problemas, antes de levar o primeiro golpe, antes mesmo de receber a primeira peça do seu novo figurino, é que ele não pode fugir e deixar a vida para trás, naquela van mais danificada do que ela estava quando ele chegou na pousada.

Calvário é violento, perturbador, mas acima de tudo, desconfortável. Cheio de desejos e fantasias sendo vividos sem pudor na frente da câmera, coletivamente, como uma psicose compartilhada. Nenhum gesto de carinho durante todo o filme, é assistido com tranquilidade. A iluminação é cuidadosamente trabalhada para parecer natural, enquanto que o cenário é filmado como um pesadelo do qual não se pode escapar, mesmo sem portas ou cercas. É a junção de dois mundos, com apenas Marc fazendo parte do real. Por alguma razão ele é amado, por esta mesma razão, não podem deixá-lo ir. Se ele interpretar bem o papel, nada de ruim pode lhe acontecer, ou assim ele espera.

Calvaire 2Marc sonhava com a fama, sem entender direito no que ela consiste. Um bando de desconhecidos o admiram, o desejam e atribuem a ele uma personalidade que ele não tem. As celebridades de verdade, pagam um preço figurativo para serem quem são, mas elas têm dinheiro, seguranças e direitos reconhecidos por todos. Marc não tem nenhuma dessas vantagens no filme. O preço que ele paga é literal.

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