Dirigido por Kathryn Bigelow
Dirigido por Kathryn Bigelow

Um jovem ameaça a união de uma família de vampiros.

O vampirismo em Quando Chega a Escuridão, não é o principal elemento de terror, é uma opção, já que os membros do clã, parecem mais dependentes de violência, do que de sangue. Em muitos momentos eles se comportam como criminosos comuns, ainda que sádicos. Deixando de lado os benefícios da rapidez e força excepcionais que vampiros possuem, eles seriam do tipo que utiliza as vantagens de armamentos pesados, para intimidar e matar. Mas a decisão da diretora Kathryn Bigelow, de Guerra ao Terror e muitos outros filmes de ação, que fazem dela uma espécie de Michael Bay, só que competente; foi essencial para proteger o restante dos personagens, pelo menos durante as horas em que o sol reina. 

Os predadores são tão perigosos e imprevisíveis, aproveitando cada minuto de suas longas vidas, que não conseguimos gostar deles, mesmo testemunhando suas ações em todo o filme, esperando que eles não sejam pegos. É uma afinidade que não dura muito, nem para torcer pelo time que sempre ganha. Mas eles não querem a nossa aprovação e também não aceitariam qualquer um na família, e é uma família. Com direito a um patriarca, irmãos briguentos e vínculo emocional. Os veículos que os vampiros roubam, para cruzar as cidades levando morte e destruição, não são os mais belos, mas são apropriados para que todos os membros se sintam acolhidos, como em um lar de verdade.

Caleb, um cowboy conquistador, dá uma olhada em Mae pela primeira vez e se encanta. A garota está sozinha, curtindo um sorvete tarde da noite do lado de fora de uma loja de conveniências. Ela é discreta e se esquiva de quase todas as perguntas que Caleb faz. Ele poderia ter entendido como rejeição e seguido o próprio rumo, mas ela também gostou dele e é esse sentimento que mantém Caleb vivo. O jovem confunde excentricidade com timidez e chantageia a moça por um beijo. Ela cede, a ele e à fome.

neardark01Não é exatamente o romance do século. Seria como se Romeu, ao invés de ser rejeitado pela família de Julieta, fosse forçado a rejeitar a própria família. Quando amanhece, Caleb está tentando chegar à pé em casa, enquanto o corpo dele sofre com os efeitos do sol. No rancho onde ele morava, o pai e a irmã, sua única família mortal, assistem ao jovem se aproximando da propriedade com dificuldade, até que sua nova família o captura e foge com ele, em um veículo espaçoso e com as janelas pintadas de preto.

Existem dois tipos de vampiros. Os que amam e os que odeiam ser. Não existe um meio termo, porque não se pode ignorar a condição. Se um vampiro que se odeia, enxergasse os benefícios de ser o vilão da história, ele passaria sem problemas para o outro lado? Nesses tipos de filme, tem sempre alguém fugindo no maior desespero e nunca é um vampiro. Essa é uma vantagem para ser apreciada por toda a eternidade. 

É claro que qualquer pretendente quer agradar a família da amada, mas não querer ser uma vítima não faz de ninguém um vilão. Honrar essa nova família, significa que Caleb terá não só que matar, mas gostar de fazê-lo. Antes de conhecer Mae, ele pensava em partir, deixando para trás uma vida que ele julgava monótona. A nova vida é rica em poder, mas tão caótica e violenta, que nem Mae pode aliviá-la e Caleb passa o restante do filme, pensando sobre qual das famílias merece a sua lealdade.

neardark02A melhor performance do filme, fica por conta de Bill Paxton no papel de Severin, um psicopata que adora se divertir com a comida. Ele é o membro mais dedicado da família e ao mesmo tempo o menos agradável. Uma peça cômica para se olhar de longe, mas não um sujeito para ser aturado por anos a fio. Aparência sem substância, como a vida que ele leva.

É um filme com vampiros, mas não sobre eles. Bigelow, que rejeitou o tipo de filme que outras diretoras estavam interessadas em fazer, não quis que seus assassinos fossem charmosos, ou que seus apaixonados fossem completamente devotos. O filho do fazendeiro não é mais um garoto e tem o direito de ser o que bem quiser. Uma paixão o levou a encrencas, mas o amor, sem contos de fadas, pode trazer decisões tão acertadas que nem a mitologia vampiresca poderia resistir. É um filme sobre escolhas, sobre seguir seus mais profundos instintos, o seu próprio caminho, sendo um Capuleto ou um Montéquio.

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