Dirigido por Roman Polanski
Dirigido por Roman Polanski

Uma futura mãe desconfia que os vizinhos planejam algo diabólico com o seu bebê.

Gestação é ao mesmo tempo a coisa mais maravilhosa e assustadora do mundo. Enquanto outro ser humano cresce dentro de você, seu corpo muda. Sua mente é invadida por pensamentos estranhos, que nunca teve antes e você pode sentir um impulso de cortar o seu cabelo bem curtinho. Com a cabeça a mil, podemos ser levados para longe da sanidade e imaginar que aqueles que nos cercam não são de confiança. Mas este filme não é sobre nada dessas coisas.

Rosemary e Guy são um jovem casal prestes a se mudar para um novo apartamento. O prédio onde ele se localiza, é uma mistura de sofisticação e desleixo, perfeita para a dona de casa e o marido ator, que ainda não conseguiu um papel além de personagens secundários em algumas peças de teatro e comerciais de tv. Quando Rosemary escuta as histórias sobre bruxaria e assassinatos, cometidos por antigos moradores do prédio, ela não se incomoda. O apartamento é muito atraente para ser desconsiderado e a esposa ainda não tinha o peso físico e mental de uma gravidez, que fariam dela uma pessoa mais impressionável.

O Bebê de Rosemary é tão bem dirigido, que mesmo tendo mais de duas horas e saindo muito pouco do apartamento, não há um momento de tédio sequer. Todas as cenas são importantes. Nada está fora do lugar, nem mesmo Rosemary, porque não é ela que sai da própria realidade em busca do terror. O terror é que a encontra. É um filme absolutamente simples, sobre um casal com uma vida normal e vizinhos intrometidos, exceto por um detalhe a ser revelado nas últimas cenas do filme. Todas as tragédias que acontecem, que vão de um coma a um suicídio, são encaradas como algo natural. Até a frequência e a proximidade das vítimas tornam esses acontecimentos comuns, ao invés de despertar suspeitas de uma maldição. Tudo é planejado com tanta maestria, que ninguém, nem nós, nem Rosemary, tem noção de onde o verdadeiro inimigo se encontra, até que ele seja parte dela.

rosemarys-baby-1O apartamento para onde o casal se muda, costumava ser bem mais espaçoso. Mas o antigo dono resolveu separá-lo em dois, vendo que o tamanho do imóvel possibilitava o feito. Do outro lado da parede estão os Castevets, um excêntrico casal de idosos, que nunca espera incomodar… todos os dias… nas horas mais impróprias. Rosemary os suporta educadamente, mas basta apenas uma conversa particular com o senhor Castevets, para que Guy, o inseguro e influenciável Guy, o desesperado por trabalho e ambicioso Guy, se torne um defensor incondicional dos pentelhos.

Não é como se a dona de casa levasse a vida mais animada do mundo, mas ver Rosemary sozinha, fazendo qualquer trivialidade, é muito mais confortável do que vê-la importunada pelos vizinhos. Apesar de parecerem gentis e inofensivos, o poder de persuasão dos velhinhos e a constante vigilância que eles exercem, nos deixam sempre com um pé atrás e Rosemary constantemente irritada. Não há nem clima para celebrar as boas notícias, mas isso pode ser mais pelo modo como elas aconteceram. Guy herdou um papel importante em uma peça, depois que outro ator ficou cego misteriosamente e Rosemary está grávida, depois de uma noite bem estranha ao lado do marido.

O filme foi feito em uma época em que os costumes eram um pouco diferentes, então é claro que vamos estranhar todas as vezes em que Rosemary, com o seu barrigão, segura um copo com bebida alcoólica, ou quando fumantes se aglomeram ao redor dela. Agora, incomum até mesmo naquele tempo, é o tipo de gestação que Rosemary está vivendo, ou sofrendo. Dores terríveis, perda de peso extrema, que deixa a sua aparência cadavérica e um apetite por carne crua. Se pelo menos Guy fosse mais atencioso e não se recusasse a tocar a barriga da esposa, a situação seria menos penosa.

rosemarys-baby-2A futura mãe está sempre cercada de gente, mas nunca se sentiu tão só. Quando começa a juntar as peças do quebra-cabeças, a história que ela tira dele pode até ser verdadeira, mas é fantástica demais para que alguém lhe dê crédito. O pior é que nem mesmo Rosemary sabe a extensão total dos planos que existem, não contra o seu bebê, mas contra ela.

Longe de ser uma sombra do marido, Rose está sempre tomando as decisões pelos dois. Este nunca foi em nenhum momento, um filme sobre o ponto de vista de uma mulher fraca e apavorada, apesar desta ser a condição dela em alguns momentos. A maldade existe e quando convence um número grande de pessoas a trabalhar em seu favor, não há personalidade que se salve, por mais forte que seja. Ninguém conhece ninguém. Isso é mais assustador do que sangue jorrando ou um susto barato, causado por algo pulando na tela. Artifícios que, ainda bem, passam longe desta produção.

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