Dirigido por Marvin Kren
Dirigido por Marvin Kren

Tudo o que Michael queria era ter Gabi de volta. Ele até consegue chegar no apartamento onde ela mora, mas é o último dia normal da humanidade.

Pode levar alguns minutos, pode levar alguns dias. Eventualmente a transformação acontece com quem foi contaminado, sem que ninguém precise morrer. É um vírus, como em Extermínio, só que a aparência dos vilões é tão sobrenatural quanto a de um zumbi. Os olhos são substituídos por dois inexpressivos globos brancos, que terão um papel decisivo no final da história e o comportamento se assemelha a de cães raivosos. Sobreviver é uma questão de sorte, de ter os recursos certos ao redor e já estar em um lugar seguro, porque tudo acontece muito rápido.

Michael está na porta do prédio de Gabi, sua ex-namorada, ensaiando uma conversa de reconciliação e segurando a chave que ela pediu para ele devolver, quando escuta dois gritos, com alguns segundos de diferença, vindos de lugares distintos da rua. Como ele não mora em Berlin, o nível de barulho local é desconhecido, então ele ignora e sobe as escadas para descobrir que Gabi não está em casa, que saiu minutos antes dele chegar.

Berlin Undead1Berlin Undead é bem curto, tem apenas uma hora de duração e basicamente uma locação, o prédio, porque quem estava nele quando o vírus começou a pipocar por toda a cidade, como Michael e Harper, o aprendiz de encanador que estava no apartamento, mal teve coragem para colocar a cara para fora da janela, muito menos sair por aí procurando encrenca e nos levando junto. A disposição do prédio é boa, apesar do apartamento de Gabi estar na parte interior e perder o que acontece na rua. O formato curvado transforma um edifício em dois e permite interação com alguns vizinhos, que também possuem janelas internas. O único problema é um vasto pátio que coloca uma distância muito grande para permitir contato físico. 

Da dupla que se refugiou no apartamento, Michael é o mais velho, mas Harper é o mais prático. É muito difícil engolir o comportamento de Michael, que se preocupa em manter o apartamento em ordem, para uma mulher que pode muito bem estar morta. É uma questão de perspectiva, que acaba fazendo com que tudo o que venha de Harper pareça maduro. A verdade é que Michael vive um pesadelo dentro de outro pesadelo. Não basta vivenciar o fim do mundo. Ele tem que acontecer enquanto se está preso na casa da ex.

Uma vantagem nessa nova situação, é a tranquilidade da vizinhança. Os poucos sobreviventes do prédio aprendem bem rápido, que qualquer barulho é perigoso. Os contaminados nem sempre são vistos no pátio, mas uma conversa mais empolgada de janela para janela, atrai um bando gigantesco, como se o lugar tivesse seus zumbis particulares, sempre a postos.

Berlin Undead2Como Michael não é o mais agradável dos protagonistas, eu adoraria ter visto os vizinhos se alternando no papéis principais do filme. Nos mostrando seus apartamentos, suas preocupações e a quantidade de comida em suas despensas. O filme não é tão longo, mas não são muitos os vizinhos que sobraram, então eu acho que é um pedido razoável. Sabemos por meio de um curativo bem visível, que um dos vizinhos está ferido, possivelmente contaminado. Seria interessante ver aquele homem gigante, com cara de integrante do Hell’s Angels, desabando aos poucos em sua solitária moradia, mas permanecemos ao lado de Michael, que só pensa em Gabi. Ainda bem que também temos Harper, o calmo, controlado e preparado adolescente. 

Não é só a língua, ou o título que denunciam a nacionalidade do filme. Não tem os carrões impecavelmente construídos, ninguém come salsichas e não há nenhuma referência à vergonhosa participação na Segunda Guerra, mas só o cinema alemão para desmistificar o apocalipse e apresentá-lo como ele realmente será: uma experiência monótona, de muita espera e incerteza, onde todos os atos arriscados resultam em fatalidades. Sem heróis, sem grandes batalhas, só muito tempo de confinamento para pensar na vida e na morte. É muito mais Ingmar Bergman do que George Romero.

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