Dirigido por Kim Jee-Woon
Dirigido por Kim Jee-Woon

Depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, duas irmãs tentam se adaptar à nova vida familiar ao lado da madrasta.    

Eu adoro filmes que me enganam. Que me fazem recapitular cenas na minha cabeça, enquanto os créditos rolam. É ainda melhor quando a história é bem contada, fazendo com que a inevitável reprise, seja uma experiência agradável e novamente assustadora, além de uma divertida caçada por pistas ignoradas anteriormente. A casa tem fantasmas, mas também tem gente bem xarope, enxergando muito além dos espíritos. Imaginando coisas, arrumando briga e quando as pílulas não resolvem, é um sofrimento só. Este é um filme sobre os caminhos que a mente percorre, para tentar aliviar este sofrimento. Porque existem dois tipos de assombração. Tem aquela da qual a gente se livra, pulando no caminhão de mudanças e aquela que só suportamos, porque somos responsáveis pela sua criação.

As irmãs estão saindo do hospício. A tradução de seus nomes coreanos é Lótus, a mais velha, aparentemente serena mas certificadamente maluca e Rosa, a mais nova, tímida e medrosa. Em estados mentais bastante delicados desde a morte da mãe, as duas não se desgrudam, com medo de que a separação lhes cause algum dano. A maluca sempre protegendo, a medrosa sempre se espelhando. Tale of two sisters1Perto de gente doida, não se faz movimentos bruscos. Você enche as paredes de papéis com padrões repetitivos, incentivando a rotina e se certifica de que o local de acolhimento seja calmo e isolado. É com esse cuidado especial, que as duas irmãs voltam para casa. O pai está tentando criar um reino de paz para as suas princesinhas. Na verdade, só para a maluca, já que a medrosa não precisa de tanta atenção. O que não ajuda muito, é que uma bruxa malvada perambula pelo castelo, agindo como se fosse a rainha. A casa não é pequena demais para os moradores, realmente, não é, mas a animosidade deixa o ambiente pesado e as paredes, mais próximas. As garotas detestam a madrasta, que também não morre de amores por nenhuma delas. O pior é que a mulher age como se as três fossem grandes amigas, principalmente na presença do pai. Tudo é motivo para brigas, até colaboração nas tarefas domésticas. Mas além da disputa pelo mesmo teto, pelo amor do mesmo homem e muitas outras coisas em comum, as personagens femininas do filme, têm o dom de ver espíritos. Só elas, porque o pai não vê nada, nunca. Este senhor de meia-idade, respeitado o suficiente para exigir ordem, mas distante demais para saber o que acontece de verdade na casa, é com quem o público deveria se identificar.

Claro, sabemos de coisas que ele não sabe, mas ele também tem informações que facilitariam nosso entendimento, sobre o caos que toma conta do filme. Ele é o único que respeita as regras, apesar de não agir de acordo com um plano traçado, ao contrário de certos membros da família. Seu maior defeito, e quanto a isso ele não pode fazer nada, é não saber o que se passa na cabeça de ninguém. Tale of two sisters2Fantasmas são “melhor aproveitados” durante a noite, mas em Medo, eles não respeitam horários ou momentos apropriados. O mais belo exemplo, é a aparição durante um jantar familiar, que já estava bem problemático, com um surto psicótico e um ataque epiléptico. Se os moradores vivos não ligam para as visitas ou para o relógio, porque os mortos deveriam?

Nem o diretor se limita a deixar o twist onde ele deveria estar e nos faz uma revelação bombástica no meio do filme. A convivência entre as moradoras, fica cada vez pior, já que a revelação-chacrinha, só veio para confundir. A madrasta, apenas um pouco mais velha que as enteadas e também adepta das mudanças drásticas de humor, usa a desobediência das meninas para exercer com violência, os direitos maternais adquiridos de forma duvidosa. Neste terrível conto de fadas, ela amedronta mais do que os monstros que vivem no armário. Eu só não cantaria vitória muito cedo, porque esse tipo de história, nunca é contado pelo ponto de vista da bruxa.

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