Brynn está pisando em ovos na cidadezinha onde mora, por razões que desconhecemos. Autônoma, ela trabalha em casa e vende seus produtos pelo correio e é neste momento de interação obrigatória, que vemos moradores virando a cara e interrompendo suas conversas particulares, só para ignorar a moça com convicção. De alguns, Brynn tem até o cuidado de se esconder. Ela vive solitária, em sua casa afastada, sem jamais descuidar da aparência e da ordem ao redor, tanto é que uma falha no gramado em forma de círculo, desses que em maior tamanho e complexidade no milharal, geralmente indicam visitantes de outro mundo, causa mais estresse do que o desrespeito do entregador com um pacote endereçado a ela. É uma rotina de esperança em meio à falta de comunicação, exceto por cartas que ela escreve a uma amiga, mas provavelmente não irá enviar. Não há toque, além do túmulo frio da mãe morta há pouco tempo. Infelizmente, um grandioso e inédito acontecimento, afetará toda a região, só que Brynn continuará sem diálogo, já que os invasores buscando contato, não estão muito equipados ou dispostos a conversar.

O filme segue uma fórmula que é sempre capaz de fazer sucesso, se bem aproveitada: a do herói, ou heroína, lutando pela sobrevivência contra uma ameaça, claramente grande demais para uma só pessoa. Algo como Rambo, ou John McClane preso no Nakatomi Plaza, sem poder fugir dos terroristas porque a esposa dele é um dos reféns. Aqui, Brynn está limitada primeiramente, pelo ranço que a isola da população e eu acho hilário que ela ainda tenha a presença de espírito, depois do primeiro encontro extraterrestre, de tomar um banho e cobrir os ferimentos, antes da possibilidade de encontrar um vizinho e causar uma má impressão. Ela sabe se virar, mas não se encaixa no papel clássico que este tipo de narrativa tem para ela, porque mesmo antes da invasão, com toda a tristeza de sua situação, o filme já se inclinava para o lado da comédia. A fórmula está aqui, porém exige algumas adaptações, quando se trata de uma protagonista banida da sociedade e é interessante ver o quanto isto é um agravante de peso. Tom Hanks tinha que vencer um oceano inteiro em Náufrago, Will Smith enfrentava vampiros zumbificados e somente durante o dia em Eu Sou A Lenda, mas por incrível que pareça, a jovem deste filme é ainda mais privada de recursos para sua salvação. 

Ninguém Vai Te Salvar exibe uma mistura de vários filmes de invasão alienígena que conhecemos. Tem elementos de Sinais (2002), Invasores de Corpos (1978), Guerra dos Mundos (2005) e até os dedos exagerados de E.T. (1982) recebem uma homenagem. Os vilões sobrenaturais lendários também aparecem, toda vez que caminham calmamente atrás da mocinha, que corre uma maratona e continua em desvantagem. O design das criaturas varia, assim como nós humanos também variamos em formas e tamanhos, fazendo com que as referências continuem diversificadas e imprevisíveis a cada aparição. Toda a direção de arte, figurino, trilha sonora, têm uma atmosfera retrô, de ficções científicas de décadas atrás, no entanto, o modo como as criaturas se movem, fazendo alusão aos monstros sobrenaturais atuais, cheios de problemas nas juntas, já é o suficiente para firmar o gênero terror como o principal. Kaitlyn Dever está muito bem no papel de Brynn, se candidatando para uma vaga de Scream Queen no Hall da Fama correspondente, sem gritos, em um filme praticamente sem falas, onde suas expressões faciais são atributos sinceros e indispensáveis. 

No final da história, recebemos respostas para as duas grandes questões do filme, ou seja, o propósito da ocupação e a razão para tanta hostilidade em relação à personagem principal. Eu gostei de ambas. Gostei também do desfecho do filme, que parece ter causado uma certa aversão e confusão em parte do público. Se o mundo da protagonista a considera indigna e ela concorda com isso, mas ainda faz a escolha de enfrentar a realidade, a solução para a convivência foi a melhor possível. O custo é que para isso, o filme meio que cede ao drama e o custo ainda maior, é o longo, anti-climático e repetitivo caminho até a conclusão de tudo. Eu entendo que, pelo privilégio de ser a protagonista, ela tenha o direito de escapar de situações que significariam a morte certa de qualquer pessoa, mas a quantidade exacerbada destas situações, testam a nossa paciência. A falta de diálogos é algumas vezes contornada por cortes estratégicos, ou seja, acontece fora de cena e indica que a vida de Brynn não é somente ouvir grunhidos e xingamentos abafados pelos vidros de um carro. Se acontece e não nos é mostrado, então não é um truque de roteiro 100% viável para esta história.

Neste longa feito para a plataforma Hulu, pelo diretor Brian Duffield, também roteirista de Amor e Monstros (2020) e A Babá (2017), os cenários são muito bem utilizados, principalmente nas cenas de combate. A ação começa na casa de Brynn e retorna para ela, mas não antes de percorrer toda a cidade, passando por áreas povoadas e bosques vazios de dia e de noite, sem passar a impressão de mostrar mais do mesmo, ou lugares sem personalidade. Nas duas primeiras partes da narrativa, o ritmo é frenético e a sensação de perigo é constante. Como são diversas obras que servem de modelo para o filme, ele se enfia em diversos clichês, mas é o modo inesperado e incomum como o roteiro se liberta deles, que deixam a luta da jovem bem divertida. Contando com todos os poderes que os alienígenas têm e eles parecem ser infinitos, o filme também encontra uma solução plausível para que, uma vez que a ameaça de fora seja reconhecida como muito maior do que a antipatia local, Brynn siga sem conseguir soltar um simples grito por socorro, porque este grande recurso dos filmes de terror, acaba representando um risco que nem mesmo o público contesta. O enredo me lembra muito os episódios de Além da Imaginação e um em particular, na versão dos anos 80 da série, era um conto angustiante de um criminoso em uma sociedade alternativa, condenado à viver um ano sem que ninguém falasse com ele. O cara acha uma pena leve e ridícula, até que alguns meses se passam e a sentença se revele extremamente cruel. Este filme não é perfeito, mas é um esforço bem feito em vários sentidos, principalmente no que se refere ao grande argumento, de que como diz a canção… é impossível ser feliz sozinho.