Peraí, como assim? O cara não tinha morrido? Estaríamos entrando em uma nova era de vilões imbatíveis, como Michael Myers e Jason Vorhees, que só não riem na cara da morte porque as máscaras escondem as expressões faciais? Existe sim uma proposta aqui de ignorar as leis da natureza, para permitir que gente ruim continue aprontando além da cova, mas se você se lembra de alguma coisa do primeiro filme, além da pseudo-tentativa de esconder Ethan Hawke debaixo da máscara do Sequestrador, é que para escapar dele o menino Finney, que é tão espiritualmente sensitivo quanto a irmã Gwen, precisou de uma ajuda sobrenatural das vítimas prévias do assassino, que morreram no porão da casa. O tal telefone do título, era uma ferramenta de comunicação indispensável naquela história, mesmo que o aparelho não estivesse conectado a nenhuma linha e que o vilão fosse de carne e osso, portanto, nenhuma lei foi violada na produção de Telefone Preto 2, para trazer mortos de volta à vida. O que esta nova produção deixou mais claro sobre o filme anterior, é que o maior azar do assassino em série foi ter capturado uma criança que parecia tão frágil quanto as outras, mas cuja mediunidade a preparou para a batalha de uma maneira que as outras vítimas não teriam acesso. Ambas histórias são sobre vidência, mais do que qualquer outra coisa e é a mediunidade de Finn e Gwen que o segundo filme quer e irá explorar com mais profundidade.
Estamos em 1982, com Finn e Gwen muito diferentes de quando os vimos pela última vez em 1978. No caso de Finn não é apenas a mudança na altura ou na voz. O menino franzino se foi para sempre e no lugar dele, surgiu um rapaz de alma endurecida e impulsos violentos, que briga na escola e sempre ganha. Visto como o garoto que matou o monstro, ele adquiriu uma certa fama e o respeito entre os colegas, mas ainda atrai a atenção de valentões que são transferidos para a escola, e não perdem a chance de exigir um teste de força e habilidades da mini-celebridade local. O desafio é sempre aceito, só que o rapaz tem uma dificuldade imensa em enfrentar o trauma sofrido. Ele não foge do conflito físico, mas não aceita as ligações do além que ainda se manifestam em telefones públicos quebrados. Já Gwen não possui muita escolha neste assunto. Os pesadelos cada vez mais vívidos sobre crianças mortas, fazem a jovem sofrer episódios cada vez mais preocupantes de sonambulismo. Aparentemente, vinte anos antes, outro maníaco estava a solta e agora as vítimas estão tentando chamar a atenção da dupla de irmãos médiuns. Mas com que objetivo? Por que agora?

Desta vez é uma dinâmica meio Harry, Hermione e Ron Weasley, acontecendo nesta sequência de terror. O primeiro filme tinha um senso de urgência que não existe aqui, porque Finn já saiu do porão do serial killer, no qual todos os meninos tinham um prazo de expiração. Em Telefone Preto 2, o perigo já passou faz muito tempo. Finn escuta os mortos, enquanto a irmã os vê e sonha com eles, mas apesar das muito bem filmadas e reveladoras cenas de sonho de Gwen, os dois estão a salvo. O filme ressalta esta ideia de que o tempo irá curar todas as feridas, com uma narrativa sem pressa. Desta maneira, as duas produções de terror se tornam experiências completamente diferentes, ainda que tenha os mesmos protagonistas e mesmo trazendo os mortos do primeiro filme, como é o caso de Hawke e do ator Miguel Mora, que interpretava Robin (o menino que ajudou Finn e posteriormente foi sequestrado e morto). Mora agora faz Ernesto, o irmão mais novo de Robin, que muito apegado à dupla principal, faz o trio que me fez mencionar Harry Potter. A turma se junta para investigar a fonte dos tormentos noturnos de Gwen, que ignora o bullying bem melhor do que Finn e abraça com coragem as habilidades psíquicas. Os pedidos sobrenaturais de ajuda, estão vindo de uma colônia cristã de férias nas montanhas cobertas de gelo, coincidentemente um antigo local de trabalho da mãe dos médiuns… que também era médium, lembra? Pois bem, nesta altura, algumas interações sobrenaturais são assustadoras e comprometedoras, mas tudo de ruim continua no passado. Nem a nevasca fechando as estradas até o acampamento Pine me preocupa.
Não é apenas por ser uma nova proposta, ou com um ritmo apropriado para a solução de um crime frio, em mais de um sentido da palavra frio, que o filme merece ser apreciado. Temos a chance de conviver de forma mais calma e demorada, com personagens que começamos a amar no primeiro filme, quando as circunstâncias eram sufocantes. Agora há tempo para acompanhar o desenvolvimento de suas personalidades e não apenas em uma época da vida complicada para todos nós, que é a adolescência, mas também em um período pós-trauma e de descobrimento da própria identidade. Os rostos menos fofos não diminuíram o nosso apego, a raiva e a rebeldia não diminuíram o carisma na tela e a química entre o trio é verosímil e empolgante. A nova história também prende o público muito bem. Temos um bom mistério, digno da nossa atenção e de ser resolvido pelos jovens, além de ser conectado ao passado deles de um jeito que ninguém poderia ter previsto. É claro, eventualmente o fantasma do terror passado, mais amaldiçoado em morte do que em vida, encontra um meio de continuar causando danos aos inocentes, mas até esta tempestade chegar, a calmaria estava fazendo um ótimo trabalho no roteiro. O método para o retorno do assassino, é tão piegas quanto se pode imaginar, mas eu juro que não importa tanto. Se um dos maiores pilares do terror, Freddy Krueger, transitava entre dimensões sem ser importunado, quem poderia condenar o mesmo recuso, que permanece apavorante, sendo utilizado pelo vilão atual?

Com todo o tempo reservado para crescimento pessoal, terapia familiar, contemplação, romances e tudo o mais, é ótimo ver que o filme não sofre com atrasos idiotas. Você sabe do que eu estou falando! Aqueles momentos chatíssimos em que uma pessoa tem as informações corretas sobre um crime, mas sem provas e sem a reputação inquestionável como suporte, ela não encontra ninguém que a leve a sério. Não é apenas a infância frustrante de Finn que ficou para trás, é a de Gwen também, que tentava sem sucesso guiar a polícia nas buscas pelo irmão. Ainda temos uma seleção irritante de céticos que atrapalham, mas temos uma ainda melhor de personagens que escutam e validam. Outra coisa igualmente surpreendente e eu preciso manter a discrição para quem ainda não viu o filme, é o número de óbitos fora do comum para um terror, que este aqui possui. A produção removeu o artigo do título do filme 1 para o 2, porque “O” Telefone Preto deixou de ser um objeto mágico preso no tempo e no espaço de um cativeiro, para se transformar em um instrumento de comunicação paranormal, que se manifesta através de qualquer aparelho telefônico fora de serviço, abrindo a possibilidade para que mais e mais espíritos contem suas histórias de terror no futuro. Eu adoraria visitar Gwen e Finn na vida adulta, com o mesmo trabalho maravilhoso de recriação de época, que iria retratar o fim dos anos 80, ou o início dos 90, com a dupla mais madura e experiente em relação ao serviço mediúnico. Afinal de contas, pelo que eu sei Ed e Lorraine não voltam mais.
