Eu acho que ninguém esperava muito. Quando Stephen King anunciou que estava escrevendo uma sequência para O Iluminado, o que vinha à cabeça era: “Para quê?”. O cara já não teve o que queria, com aquela minissérie de 1987? O que ainda o perturbava na obra-prima de Kubrick, para gerar um adendo não-solicitado, sendo que aquele conto com começo, meio e fim, resultou em um dos melhores trabalhos de terror da história do cinema? Bom, não-solicitado em voz alta, porque apesar de o filme de 1980 ser sua própria bolha de mistérios, se recusando a estourar e fornecer respostas fáceis, mantendo o público eternamente intrigado; talvez alguns esclarecimentos aqui e ali não sejam um insulto ao cineasta, somente uma vontade do escritor de expandir o universo que ele mesmo criou e gerar de maneira terceirizada, uma recompensa para nós que vimos inúmeras vezes o filme com Jack Nicholson, sucumbindo ao terror que jorrava dele, antes de compreender como Kubrick fazia aquilo, revelando tão pouco. Antes de entender que a armadilha era na verdade, ver e rever tentando entender, até não conseguir ver mais, como é o meu caso.

Os primeiros acordes de Dies Irae, na famosa versão de Hector Berlioz, a mesma que acompanha Jack, Wendy e Danny na estrada que leva ao Hotel Overlook, tocam ainda durante o logo da Warner, envelhecido por ser uma ocasião especial e eu me encontro completamente convencida. Chega de pessimismo até que tenha motivo para isso. Conte-me mais, Mike Flanagan, que sabiamente persuadiu o autor do livro, de que esta continuação só iria funcionar na tela, se a base dela fosse o filme de 80 que King não gostou. Flanagan é um diretor que nem sempre acerta, mas quando acerta, humilha! Para mim, Doutor Sono é o melhor filme dele. Ele teve o maior jogo de cintura, para contar bem uma história que ninguém sabia que precisava, atendendo às duas interpretações diferentes de O Iluminado, com todo o respeito aos artistas, verdadeiros gênios em seus campos de atuação, enquanto controla o ritmo de uma narrativa complicada, com toda a destreza que a experiência lhe deu, em um filme com duas horas e meia. A autoria desta produção, certamente tem a marca dele também. 

Nesta sequência da primeira história, estamos acompanhando Danny, o menino com talentos especiais, agora na sua versão adulta (Ewan McGregor) e a atualização que temos dele é um horror, mas não uma surpresa. O mundo de Danny sempre foi mais mágico e mais sombrio do que o das outras crianças e o resultado disso, é um homem solitário, viciado na droga que aparecer, egoísta e encrenqueiro. Eu gostei muito de como Flanagan estrutura o filme, criando divisões como se fossem capítulos, mas discretamente, sem subtítulos, para que King esteja sempre presente, nos lembrando que o que vemos é a adaptação de um livro. De maneira segmentada, como o autor provavelmente fez, temos um gostinho da vida da família Torrance, logo após a fuga do hotel. Anos mais tarde, dois iluminados em diferentes partes do país, sendo que um deles é o Danny-encrenca; tiram dinheiro de gente inconsciente, mas apenas um se arrepende do ato, enquanto o outro se aprofunda no crime. Os eventos que seguem, nos apresentam aos mais diferentes personagens, normais ou iluminados, com tipos e níveis diferentes de “brilho”. Soltos pelo planeta desta vez, ao invés de presos pela neve em apenas uma locação. Cada um tem a liberdade de escolher como usar as próprias habilidades, atraindo o que transmitem, como dizem por aí, mas com um agravante, na forma de um grupo privilegiado, muito unido há muito tempo, para consumir seus semelhantes. 

Com esta premissa, o autor nos diz que nem todos os que brilham usam seus poderes para o bem, oferencendo também um pouco mais de clareza sobre o papel do Overlook, em um mundo repleto de pessoas especiais. “Abra”, uma dessas pequenas talentosas, é tão poderosa que inadvertidamente chama a atenção daquele grupo trevoso, que possui a tradição milenar de se manter jovial, extraindo a essência da molecada iluminada. É por Abra, que Danny precisa vencer os próprios demônios de uma vez por todas. Está na hora de amadurecer e abraçar os próprios dons, para proteger e orientar, como o chef de cozinha Halloran fez com ele há tantos anos. King ignorou, como era direito dele, as mudanças feitas por Kubrick, para escrever esta nova e interessante história. O desafio de Flanagan, era continuar a versão do filme antigo, adaptando elementos do segundo livro de King, que não deveriam existir de acordo com Kubrick. Halloran é indispensável em Doutor Sono, mesmo tendo morrido no primeiro filme… agora, explodindo somente no primeiro livro, o Hotel Overlook, por ter sido poupado pelo primeiro diretor, acaba se tornando uma necessidade também. 

Outro cuidado que Flanagan precisava ter, era com o sobrenatural que o escritor adora e que Kubrick evitou o máximo que pôde. King, pelo meio que usa, necessita de descrições explícitas e exageradas, para provocar a reação de medo que imagens teriam com mais facilidade. O erro que muitos diretores cometem, é adaptar os livros dele de uma maneira muito literal e com consequências geralmente cômicas. Os efeitos especiais aqui são feitos com bom gosto e para a nossa sorte, Flanagan é um diretor que sabe dar sustos, o que os libera para serem quase tão numerosos quanto King os imaginou. O autor também tem a capacidade de escrever passagens ousadas e desconfortáveis, com o envolvimento de personagens infantis em seus livros, então é uma surpresa muito bem vinda, mesmo que a cena seja super desagradável, a coragem de Flanagan em mostrar o grupo sugando a energia de um menino, de uma maneira longa e brutal, quando até o último momento, nós torcemos para que a criança escape. 

O crédito é em grande parte de King, porque além da história ser boa e demonstrar a criatividade do autor; dar o aval para a realização deste filme, mesmo que a primeira experiência tenha sido tão decepcionante para ele, é também algo para se admirar. Flanagan mostra o tempo todo a consideração que tem, mas jamais esconde o amor pelo primeiro filme e a honra que este trabalho representa. É maravilhoso ver a jornada de Danny, de delinquente… a Doutor Sono, descrita por Stephen, transportada para a tela com todo o amor de Mike, mas sem Stanley, este filme não existiria. As referências estão por toda a parte. Estabelecimentos em miniatura, a padronagem do carpete, os efeitos sonoros e a trilha do original. Movimentos de câmera e enquadramentos que imitam os do mestre, recriação de ambientes, de cenas inteiras e a esperança (e o medo) de retornar à locação mais icônica do terror, nos assombrando por todo o filme. King é o cara, mas Kubrick, ironicamente, é o rei!