Uma gravação feita “somente para uso interno” de uma fabricante fictícia de refrigerantes, mostra pesquisadores testando os efeitos de uma nova fórmula em um grupo de cobaias. Foi-se o tempo de fitas encontradas em locais abandonados e das histórias que servem como elo de conexão. Diet Phantasma, sobre um experimento científico com resultados catastróficos, é o curta ao qual retornamos após o fim de cada segmento, só para ver as latas amaldiçoadas de refri ganhando (e tirando) vida, sem oferecer alguma explicação sobre como este apanhado de histórias que se passam em diferentes épocas, da invenção do Home Vídeo até os dias de hoje, foi encontrado e por quais meios eles estão sendo exibidos.

De uma certa forma, este distanciamento da ideia do filme original da franquia, que vive em constante mutação, serve o tema escolhido para esta edição como se o público estivesse diante de uma grande fogueira de acampamento, com histórias de terror sendo contadas por pessoas diferentes, sem muita preocupação com nada além de permanecer com o foco no Dia das Bruxas. Ninguém perguntaria de onde veio a história, se o contador tem testemunhas, ou algo do tipo. Esta edição, com a excessão de um curta que serve como um alerta sério para a data em questão, foi feita com histórias para nos divertir e eu fico feliz em dizer que o objetivo foi alcançado! Abaixo está uma breve análise de cada uma delas:
COOCHIE COOCHIE COO

A molecada mais nova tenta avisar, mas as quase-adultas que ainda não querem crescer, se recusam a escutar! “Vocês estão velhas demais para pedir doces nesta noite! Se não deixarem o evento só para as crianças… Mamãe irá pegar vocês!”. Esta é uma narrativa na qual começamos odiando as protagonistas, que representam o pior da adolescência, com os desaforos, a barulheira e ainda gravando tudo como se o comportamento fosse digno de registro; até que as personagens atraem uma retaliação abominável e se tornam dignas de pena. Coochie Coochie possui uma vilã bem ao estilo de Barbarian (2022), só que na forma de uma entidade sobrenatural, apropriada para dar uma lição naqueles com a persistente alma de Peter Pan. Uma vez sob os cuidados da amorosa e carente Mamãe, é impossível escapar e o que ela oferece é a juventude eterna. O problema é o quão jovem os prisioneiros devem permanecer, para sempre, ao lado dela. Um pontapé inicial brutal e histérico na sequência de curtas, e sólido o suficiente para abrir o apetite dos fãs da série em relação ao que ainda está por vir.
UT SUPRA SIX INFRA

Dirigido pelo veterano do terror espanhol, Paco Plaza, este segmento falado na língua nativa do diretor, exibe a gravação da reconstituição de um crime medonho e sem explicação. Diversos jovens estão mortos, seus olhos foram arrancados e apenas um rapaz que estava na festa de Halloween foi encontrado com vida. Ainda se recuperando do choque, o jovem acompanha a contragosto policiais, oficiais de justiça e advogados até o cenário macabro onde tudo aconteceu: uma mansão enorme e inabitada, supostamente pertencente a uma médium que morreu há algum tempo. Enquanto assistimos ao vídeo atual, imagens dos celulares das vítimas, que jamais foram encontrados, invadem a tela para nos dar uma ideia de como o grupo fantasiado chegou ali e o que realmente aconteceu com todos. Este recurso da direção acaba deixando a gravação atual mais previsível, neste que é o mais fraco curta do conjunto, mas ainda é muito interessante ver duas historinhas com desfechos semelhantes, sendo exibidos quase que paralelamente por um motivo simples: Quando autoridades armadas chegam em filmes de terror, elas indicam que o perigo já passou. A tal reconstituição é encenada com a burocracia apropriada para sustentar esta ideia, portanto cremos que quem sobrou vivo com a cena ainda rodando, está em segurança. O filme também possui aqueles incríveis truques de câmera, sem cortes, que só os experientes sabem fazer direitinho.
FUN SIZE

As atuações são bem ruinzinhas, mas não atrapalha em nada esta história absurda sobre doces… e travessuras que se utilizam de doces. O terceiro tem uma premissa que parece um pouco com a do desenho Caverna do Dragão, com os adultos fantasiados sendo sugados para um universo paralelo, porém, é como se esta premissa sofresse uma distorção violenta e libidinosa, que a tornasse totalmente imprópria para menores. Quando um sinal bem claro dizendo “Um Doce Por Pessoa” é desrespeitado, um Willy Wonka dos infernos sequestra os “criminosos” e demonstra de uma maneira super didática e festiva, todo o processo de fabricação dos seus doces e onde o Wonka da Shoppee arranja tanta matéria prima, para os seus produtos de segunda linha. Fun Size é caótico, ridículo e tão repleto de decisões equivocadas, que cabe perfeitamente em todos os nossos pesadelos. Apesar da sanguinolência, este é o mais engraçado dos curtas e apesar da leveza, ele ainda é um terror eficiente. Temos também um vilão memorável e não me surpreenderia se ele ganhasse seu próprio longa algum dia.
KIDPRINT

Eu não estava preparada para a escuridão deste segmento, principalmente após o festival de bobagens bem-humoradas que foi o anterior, mas eu acredito que esta era a ideia. Pegar as pessoas desprevenidas, faz parte da mensagem. Decidido a ser o mais pesado de todos da história da saga V/H/S, Kidprint se passa no início dos anos 90, quando as pessoas eram mais relaxadas em relação a segurança e crianças desapareciam com mais facilidade. A comunidade de uma cidade qualquer, se une à polícia para tentar inibir a ação de um assassino em série, criando um cadastro visual de crianças e adolescentes para ser utilizado se necessário, em eventuais buscas por desaparecidos. Os fatores que ninguém leva em consideração, no entanto, é o quanto os predadores são persuasivos e cheios de recursos, assim como os alvos são inocentes e manipuláveis. O diretor Alex Ron Perry, que fez carreira com videoclipes, está em uma missão para não deixar que pais, filhos e toda a sociedade, para dizer a verdade, baixe a guarda diante deste tipo de perigo, mesmo em uma época altamente vigiada, como é a atual. Este é um episódio que não economiza crueldade, ou poupa os nossos olhos da violência extrema de um maníaco, independente da vulnerabilidade das vítimas. Não há nenhum elemento suave, porque o objetivo é que o curta seja difícil de ver. O único que não é sobrenatural, porém, é o que mais dá medo.
HOME HAUNT

Home Haunt é uma homenagem aos entusiastas do Halloween, que tornam a data mais especial e importante do que o Natal, por exemplo. Eu reconheci a lenda da maquiagem Rick Baker de cara, sabendo que ele não faz uma ponta aqui gratuitamente. O Dia das Bruxas é sobre sustos, sobre se empanturrar de guloseimas e sobre cair na gargalhada, para um pai e um filho que se empenham todos os anos, com elaboradas decorações de gosto duvidoso, que tomam todo o jardim da casa para entreter a vizinhança. Do fim dos anos 70 para o início dos 80, o menino cresce, vira um adolescente revoltado e de repente, brincar de casa assombrada com o pai é um motivo de vergonha, ao invés de uma atividade saudável de criação de vínculos e memórias. Está na hora de deixar a brincadeira menos infantil, só que no desejo de renovar a relação com o filho, o pai da família abre um portal para uma dimensão sombria e perigosa. O curta é uma ótima desculpa para abusar dos efeitos e exaltar o trabalho das mentes criativas das artes visuais, que sempre sustentaram o terror (para a diversão) dentro e fora das telas.
