Este blog está disposto a admitir logo de cara, que existe um fator muito importante inclinando esta crítica para o lado negativo, antes mesmo de já levar em consideração que o lance aqui nem é mais uma franquia e sim uma corporação, com tantas continuações, spinoffs e continuações dos spinoffs, bem ao estilo Marvel mesmo e isto abre a “empresa” para ser guiada por gestores bons e não tão bons, ou seja, se não estiver sob o comando direto de James Wan, a qualidade do produto pode não ser a maior prioridade. Portanto, o que me deixa com o pé atrás preventivamente, é que o caso escolhido pela produção para servir de adeus aos propulsores deste cine-verso, já foi retratado antes pelo que eu considero um dos filmes mais assustadores já feito pela indústria. Obviamente qualquer filme de terror visto na infância, causa um impacto que o torna legendário, como foi o acontecimento para mim com A Casa das Almas Perdidas (The Haunted – 91), fazendo com que falhas e desatualizações fossem perdoadas pela nostalgia, mas o fato é que o solavanco causado por esse clássico dos anos 90, só me permitiu revisitá-lo depois de adulta em fevereiro deste ano, ainda em doses graduais e somente em horários considerados vergonhosos, para alguém que se diz especialista em terror. Então, como diria Yoda: “contaminada por memórias de uma obra prévia, esta crítica está!”.
A introdução de um objeto amaldiçoado à narrativa me incomoda, não apenas porque eu sei que ele não existiu, mas porque isto me faz questionar o que mais de fantasioso está por vir. Eu sei que preciso deixar de lado a minha familiaridade com este caso, considerando que a maior parte do público não irá se importar com isto, assim como sei que os Warren precisam de ítens para encher o porão deles (e nem todos os objetos verdadeiros devem render boas histórias). De qualquer forma, o espelho pomposo inventado serve como elo de conexão entre os assombrados da vez e os demonologistas. O último filme estrelando Vera Farmiga e Patrick Wilson nos papeis principais, utiliza um argumento fictício de acerto de contas com um suposto primeiro vilão da carreira deles, reaparecendo décadas depois na casa de uma família qualquer. O objetivo é aposentar os personagens com uma pequena batalha, que significa na verdade a superação do medo do sobrenatural, algo muito positivo na minha opinião, mas é impossível não notar, mesmo sem o outro filme na lembrança, que a família que realmente sofreu com a assombração nem fica para segundo plano, fica para terceiro atrás de Judy Warren, que ganha um destaque justificado somente para um filme que está usando o caso real como pretexto para homenagear a família Warren inteira.

Eu tenho certeza de que não era a intenção diminuir a importância das verdadeiras vítimas, mas até o trabalho de câmera dificulta a nossa conexão com a família Smurl, ao mostrar os integrantes sob ângulos desfavoráveis e quase sempre com a fotografia bem escura. Tem um monte de gente morando naquela casa e não somos encorajados a decorar seus nomes. Crianças pequenas presenciam manifestações demoníacas e a nossa empatia por elas é tão amortecida, que quando as duas famílias finalmente se encontram no filme, depois de um bom tempo de sustos (muito bem filmados, eu devo acrescentar) para ambas separadamente, os enquadramentos ficam mais humanizados, mas o nosso desinteresse pelos Smurl não muda. Eu não me lembro totalmente da história de Invocação do Mal 2, mas nunca me esquecerei da expressão de tristeza no rosto da criança mais afetada pela assombração na família Hodgson, enquanto Ed Warren canta Can’t Help Falling in Love, do Elvis, como um presente de despedida. A mando do demônio que a atormentava, a pequena Janet Hodgson havia convencido Ed e Lorraine de que a possessão foi uma invenção, se sacrificando para salvar toda a família e aquela cena inteira acabou comigo! Os Warren sempre foram os melhores forasteiros dos filmes de terror, oferecendo seus dons e conhecimentos sem obter nada em troca. Aqui, com todo mundo no mesmo barco, o desespero da família assistida se torna bem mais morno, por ser compartilhado com profissionais no assunto.
Na história que se passa em 1986, enquanto os Smurl experimentavam os primeiros sintomas de uma casa mal-assombrada, o casal de investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, vivia um período de declínio do interesse do público no trabalho deles. Qualquer semelhança com o mundo cinematográfico, depois da saturação causada por tantos filmes, é pura coincidência. As aparições sobrenaturais nunca diminuíram para os Warren, mas todos sabem como lidar com elas, ao contrário dos Smurl, que não conseguem parar de tomar decisões equivocadas. Com episódios cada vez mais traumáticos, para todos os membros da família e sem o apoio religioso de que eles tanto precisam, os Smurls decidem revelar o martírio para a imprensa, atraindo a atenção de todo o país. Porém, apenas depois da morte de um antigo colaborador e da aproximação arriscada da filha do casal, é que os Warren decidem se envolver. Ed está muito doente, Judy está enlouquecendo ao herdar os dons da mãe, o noivo dela vive pisando em ovos com a família e Lorraine está preocupada demais com todos, até se dar conta de que para seguir em frente com saúde, ela precisa resolver problemas antigos e estes problemas estão instalados na casa dos Smurl, aguardando pacientemente a chegada dos Warren.

Como era de se esperar nesta franquia, algumas sequências de terror são sucesso total! A cena da mão demoníaca no ombro de Judy no restaurante… a aparição no porão dos Smurl durante uma lavagem de roupas, nesta que é uma grande reunião de família em primeiro lugar, com direito à presença especial de personagens dos outros filmes. O problema é que em segundo lugar vem a história dos Smurls e existe um prejuízo nesta escolha. Não me entendam mal, porque Lorraine ainda é uma rockstar que adoramos ver na tela, toda vez que ela aparece “sentindo” alguma coisa no ambiente, mas o esforço concentrado na produção de um vínculo com a filha sensitiva, o noivo inseguro e o marido doente, tira um tempo precioso que seria usado para formar laços com a outra família. O filme também sofre com muitas cenas de um terror exagerado, como a cena da loja de noivas, ou a longa sequência do padre na diocese. Há até a banalização das aparições de Annabelle (ela não deveria estar presa no porão?) e uma tomada mostrando pernas penduradas de um enforcado no começo do filme, feita propositalmente como uma referência ao corpo na árvore do primeiro Invocação do Mal, mas que não reproduz nem de longe o efeito de terror “raiz” que transformou o original em um fenômeno. O quarto e último filme quer contar com a nostalgia, ao apresentar uma narrativa dupla construída de forma desproporcional e com um vilão com pouca personalidade. Se usar a nostalgia está liberado para eles, está para mim também e eu digo: a história dos Smurls no outro filme foi melhor!
