Olha que conceito legal! Durante o que deveria ter sido um vôo de rotina, tarde da noite de Los Angeles para Boston, o avião passa por uma espécie de anomalia sobrenatural, horas depois de decolar, fazendo desaparecer os tripulantes e a maioria dos passageiros, que só deixam para trás o que realmente não os pertencia, como dinheiro, jóias e dentaduras. Apenas dez pessoas permanecem na aeronave e por sorte, um deles é um piloto. A teoria que brota no grupo, depois de uma dose compreensível de desespero, é que eles foram poupados do que quer que tenha acontecido, já que os dez estavam dormindo durante o evento, para o qual eles ainda não tem explicação. Confusos e apavorados, os salvos por uma soneca decidem pousar no aeroporto mais próximo para primeiro, estar em terra firme e segundo, reportar o incidente. Só que outra constatação chocante os espera, após o pouso forçado: Não há ninguém no aeroporto, ou na cidade onde ele fica. Ninguém no solo, ninguém no rádio e ninguém do outro lado da linha dos serviços de emergência. Se isto se parece com algo saído da mente de Stephen King, é porque é exatamente disso que se trata e como sabemos, a maioria dos trabalhos dele são ótimas ideias, mas nem tudo funciona fora dos livros.
Fenda no Tempo tinha tudo pra ser a adaptação perfeita de uma obra de King. Primeiro que a história é apresentada no formato certo, o de uma minissérie em dois capítulos, com duração total de três horas. Geralmente, as melhores versões para as telas do autor, são as que não aceleram muito a progressão dos eventos. Em segundo lugar, a própria narrativa possui diversos elementos de mistério e suspense, se desenrolando em um ritmo que mantém o público interessado, sem causar um sobrecarregamento. As tensões dentro e fora do avião são bem trabalhadas, assim como as percepções particulares dos envolvidos, sobre os aspectos que compõem o fenômeno, culminando na explicação sobre ele e é nesse ponto que eu queria chegar. O esclarecimento do problema sobrenatural é imaginativo e cheio de características interessantes, mas atrelado à revelação está um dos mais acidentalmente hilários e mal feitos monstros da história do cinema e uma vergonha deste porte é difícil de ser ignorada. Não estavam errados em adaptar o livro, mas deveriam certamente ter re-imaginado a aparência dos vilões, ao invés de seguir a descrição do autor ao pé da letra.

O resultado é que passamos a apreciar ainda mais a direção de arte em um filme de terror. Sem revelar informações-chave da história, eu posso dizer que o que me vem à mente quando eu vejo as cenas de perseguição, são… “almôndegas gigantes com dentes”… cercando os passageiros no aeroporto. Isso me dá uma tristeza, porque eu sei que é injusto com uma história rica como esta, mas é a verdade. É uma pena porque os chamados “langoliers”, deveriam ter sido uma prova da imaginação fértil de King, quando ele se aventura no campo da ficção científica. As criaturas significam basicamente, que o grupo remanescente, estejam eles no ar ou no chão, não possui todo o tempo do mundo para buscar respostas calmamente. Eles não são os típicos últimos sobreviventes da Terra, realizando buscas e desfrutando das liberdades dos que são deixados para trás, após um cataclisma. Isto deveria fazer dos “langoliers” assustadores e eu confesso que a aproximação deles, até provoca a ansiedade almejada, mas acompanhada de bastante desconforto. A verdade é que a época ideal para esta produção, é a atual, quando até animadores independentes criam imagens incríveis em computadores pessoais, tendo o conhecimento e os meios de serem fiéis à visão do escritor, sem comprometer a intenção por trás dela.
De um modo geral temos boas atuações, considerando que produções para a televisão americana, levam em consideração a aparência dos atores, antes de talento e experiência. Eu adorei ver o veterano Dean Stockwell (do Quantum Leap original) entre os passageiros, interpretando um escritor de mistérios, ou uma versão fictícia do próprio King, deduzindo hipóteses sobre o fenômeno o tempo inteiro, de uma maneira que é ao mesmo tempo descontraída e preocupante para quem o escuta. Bronson Pinchot (o Serge de Um Tira da Pesada) está magnífico como o antagonista do grupo. Ele faz o papel de um executivo que adora utilizar acessos de raiva para disfarçar o próprio pânico e fingir que toda a situação não passa de um erro grotesco da companhia aérea. Vamos ser honestos. Histórias deste tipo, sem um culpado definitivo, precisam nos dar alguém para odiar. A única personagem que enche o saco um pouco além da conta, é a criança entre os sobreviventes, Dinah, a garota cega e surpreendentemente vidente! Por sorte, os chiliques dela são pontuais. A série é dirigida por Tom Holland, que não é um estranho para o terror ou para os contos de Stephen King, portanto a condução do ritmo da história e dos atores não é perfeita, mas é bastante satisfatória.

Nenhum aparelho mecânico ou eletrônico funciona. Não há cheiro no mundo ou sabor na comida e é muito interessante que estas e outras características peculiares da ocorrência, mantém os personagens apreensivos e determina um tom de urgência, antes mesmo de nos familiarizarmos com o perigo. Até a edição de som, que poderia ser confundida com um trabalho amador, já que tudo soa enlatado, sem eco e sem vida, aumenta a sensação de isolamento para os sobreviventes. Se eles se salvaram de um apocalipse ou se estão vivendo dentro de um, é uma pergunta que somente os envolvidos poderiam responder, tanto na questão da causa, quanto na questão de uma solução para restaurar a normalidade. É claro que ajuda muito ter uma paranormal, um maluco e um passageiro com a imaginação fértil no grupo. Sempre haverá o tópico da aparição bizarra das criaturas neste filme, acontecendo depois de tanta antecipação, que o resultado é a acentuação da decepção. Se existe um clássico que merecia uma refilmagem é este aqui. Dizendo isto, a qualidade da computação gráfica em qualquer produção, é muito importante e tem todo o meu respeito, mas eu acredito que por hora, a gente possa fazer um esforço para regressar a um tempo em que tínhamos uma visão mais inocente de efeitos especiais. Quando animações em stop motion eram incríveis e livres de defeitos, por exemplo. O que for preciso para não deixar passar e curtir sem cinismo, uma história que é… me perdoem pela simplicidade… bem legal!
