Dosagem baixa, à princípio, em 7 jovens cobaias muito bem pagas, testando uma nova droga para um fabricante renomado na indústria farmacêutica. Os participantes usam uniformes, assim como os cientistas, médicos e enfermeiros e tudo é muito organizado e profissional, com contratos, regras e garantias. O monitoramento será constante, para que qualquer efeito colateral receba o tratamento apropriado imediatamente, ou assim é como a maioria das pessoas naquele local acredita que o trabalho ocorrerá. Uma exigência da empresa, é que os participantes permaneçam no andar subterrâneo do prédio, onde a experiência está sendo conduzida, durante os cinco dias de duração dos testes. Apesar da comida boa, do ambiente amplo e limpo, é um saco ficar incomunicável por tanto tempo, mas eles têm mais ou menos a mesma idade, então é só colocar o celular de lado por uns dias e conversar. O fato de que todos precisam muito de dinheiro e de que alguns nem tem lugar para morar, deveria ser um ótimo incentivo para aproveitar os dias de descanso, se não fosse pelas “horas extras” de consciência que eles ganham, quando o novo medicamento impede que eles consigam dormir. Não, o problema não é mais tempo de tédio e sim as consequências da falta de sono no cérebro dos medicados, a curtíssimo prazo, como o filme nos mostra de maneira alarmante.
“Cegueira dupla”, como diz o título do filme em inglês, se refere à falta de informação para quem ingere o produto e para quem o administra. A única parte envolvida, ciente dos componentes da droga é o fabricante, sendo que o comitê que o representa, acompanha o processo de fora do prédio. O que isto significa, é que as decisões negligentes que veremos, não serão tomadas pela galera com a mão na massa, entregando as pílulas, mas todas serão obedecidas, até pelas cobaias que estão sentindo os efeitos da experiência… quando o valor financeiro oferecido pela submissão se tornar irresistível. A primeira morte acontece e Blackwood (uma referência clara a uma controversa grande empresa do mundo real, trocando pedra por madeira no nome) estabelece automaticamente um protocolo de lockdown com duração de 24 horas, abandonando os participantes à própria sorte, em um espaço limitado do setor de pesquisas, com poucos recursos e apenas um estudante de medicina entre eles com algum conhecimento válido. A abstinência repentina, faz o sono retornar, só que o estrago já foi feito. É só mais um dia em alerta, mas eles precisam aguentar, porque sem acompanhamento médico emergencial, desligar a mente agora, depois de tantos dias sem dormir, é fatal!

Em um cenário limitado, repetitivo e despido de personalidade, para transmitir a frieza necessária, o filme consegue desenvolver os personagens sem apelar para o dramalhão, ou transformar o ambiente em algo semelhante ao Senhor das Moscas, que é o que sempre acaba acontecendo em histórias de sobrevivência sob condições adversas. A passagem de tempo na narrativa também é muito bem trabalhada e isto é notado com mais nitidez durante o aprisionamento. O modo como o passar das horas é mostrado ao público, eleva o nível deste que é um argumento simples, reproduzindo em nós a confusão dos personagens, que estão no limite da capacidade do raciocínio. Toda vez que eventos de diversas naturezas ocorrem, envolvendo uma dupla ou um trio de pessoas por vez e em sequência, a ideia é que a situação é terrível, mas pelo menos o tempo está correndo, até que o grande relógio digital no refeitório… inescapável enquanto enxergar os números nele não se torna penoso… mostra que toda a comoção não diminui o martírio em mais do que poucos minutos. A decepção é tão grande, que a sensação de cansaço e desespero dos personagens é compartilhada com o público, que conhece na vida real estas falsas percepções de tempo e mesmo quando as alucinações e os comportamentos extremos tomam conta do filme, ameaçando o realismo, nossa empatia pelos aprisionados não se abala.
Na sua estreia na direção de longas, Ian Hunt-Duffy, demonstra muito talento para criar uma atmosfera sombria gradualmente, substituindo a nossa visão dos cenários genéricos, considerados familiares e inofensivos após muitas cenas; por algo que demonstra perigo e maldição, com truques simples de edição, sonorização e fotografia. Na medida em que as mentes em quarentena vão se deteriorando, a narrativa entra em um estado de dualidade, entre os acontecimentos reais e a ótica do esgotamento mental, sem levar de fato a história para o território do sobrenatural. Duffy puxa nossos tapetes toda vez que estamos certos do que está para acontecer, pelas referências que temos do terror, mas não se trata da simples aleatoriedade sem propósito, ou do que podem ser considerados seus movimentos bruscos em momentos inesperados. Sugerindo que este é um “filme-denúncia”, antes de ser mais um exemplar do gênero, as imagens chocantes do diretor, que geralmente surgem sem preparação de uma trilha ou outro artifício de antecipação; não estão na tela para dar medo, só que o medo chega do mesmo jeito, sem a gritaria típica dos personagens. O filme é a representação do processo corrupto de um experimento falho, no qual ninguém assume responsabilidade ou seja, uma verdadeira história de terror, mas os personagens estão exaustos demais para agir como se estivessem em um filme de terror, dando ainda mais veracidade ao filme.

Fique Acordado possui um orçamento modesto, mas nenhum aspecto que demonstre economia excessiva. São poucos sets de filmagem, ou na verdade, diversas variações de ângulo dos mesmos locais, para não nos cansar e com o controle de um diretor novato que se comporta como um veterano, ditando o ritmo de um enredo que se torna elaborado pela criatividade nas reviravoltas. Temos um terror dinâmico, assustador e impactante, sem ser muito agressivo e sem perder a elegância, mesmo com cenas grotescas. Existe uma personagem central, mas todas as vítimas da história, que até possuem trejeitos desagradáveis, são dignas de torcida do início ao fim do filme. Pelo estado em que se encontram, eles nem sempre se comportarão exemplarmente, mas não existe nenhum vilão ali e por isto, acompanhar o declínio de cada um fica ainda mais doloroso e até meio pessoal. A imprevisibilidade das circunstâncias e da sequência das quedas, torna tudo mais interessante.
