Todos nós na infância, tivemos medos irracionais que nos fizeram perder noites de sono, mesmo sem nenhuma chance de se tornarem ameaças reais, como por exemplo, o perigo de estar em um avião ou barco, sendo puxado pela gravidade irresistível do Triângulo das Bermudas. Outra ideia de jerico indutora de ansiedade, era acidentalmente pisar em areia movediça e eu culpo antigos filmes de aventura por diversos destes medos irracionais. Nos anos 80, outro destes absurdos tomou forma nas telas com tanta força, que Drew Barrymore em E.T. (1982), repetindo a fala do irmãozinho: “Jacarés nos esgotos…”, mora em nossas mentes sem pagar aluguel até hoje! O medo tomando conta de nossas cabecinhas, já traumatizadas por esquecimentos de coreografias em apresentações importantes e desempenhos decepcionantes em provas de matemática, era o de por algum motivo inexplicável estar em posse de um filhote de jacaré… violando ao mesmo tempo leis contra a proteção de animais silvestres e o estatuto da criança… perder o animal de estimação para o vaso sanitário, em um surto de raiva de um de nossos genitores… e ver o bichinho, depois de anos de uma alimentação bastante desregrada embaixo das nossas cidades, se transformar em um predador imenso botando o terror na população. Se não me falha a memória, este medo ridículo se tornou, mesmo que momentaneamente, tão real para adultos quanto para crianças, pelas expressões verbais e visuais de pânico, vendo o filme tarde da noite, por recomendação de alguma das filhas do Silvio Santos.
O que o diretor Lewis Teague (de Cujo – 83) conseguiu fazer, com muito entusiasmo e bom humor, foi criar uma versão americana para o Godzilla, com cenas que apesar dos elementos um pouco datados, mantém o completo interesse do público e um admirável grau de ousadia, além de serem extremamente divertidas. A diferença entre os dois vilões radioativos, é que o lendário monstro japonês era poderoso demais para ser capturado com facilidade, já o americano, amedrontador à sua própria maneira, bem mais sorrateira à princípio, é encarado pelos órgãos competentes como um animal selvagem comum, apesar do tamanho e da fome insaciável, dando ao bicho tempo suficiente para adquirir uma contagem de corpos impressionante, antes de começar a ser levado a sério. Nesta assistida-pós-crescimento, é impossível não levar em consideração os componentes incoerentes da narrativa, que me posicionam ao lado dos personagens incrédulos, ao contrário da criança acostumada a andar de carro com o pai no banco da frente e sem cinto de segurança, revoltada com os “adultos chatos” do filme. Dizendo isto, é bom que fique claro que o cinismo moderno não tem vez nesta crítica, porque esta história de monstros ainda é incrível e funciona, mesmo que não perfeitamente, até para o público moderno vendo o filme pela primeira vez.

Alligator, responsável também por uma das minhas primeiras pronuncias perfeitas em outra língua, não se limita apenas a denunciar a falta de noção dos pais de décadas atrás. Na história, braços e pernas de cadáveres diferentes, mostrados sem filtro algum, começam a aparecer pelo sistema de tratamento de esgoto da cidade de Chicago. Nos bastidores, o laboratório farmacêutico de um magnata com conexões políticas, trabalha na criação de um hormônio de crescimento sintético, com a colaboração clandestina do dono de uma Pet Shop. Por “colaboração”, eu quero dizer que o criminoso sequestrava animais abandonados (ou com coleiras) para o laboratório, se encarregando posteriormente também do descarte das carcaças dos bichos contaminados, da maneira mais irresponsável possível. O problema, além das implicações morais e ambientais, é que doze anos antes, o mais sem noção de todos os pais havia dado descarga em um bebê jacaré, que já era naquela época o pet mais absurdo possível para a pequena Marisa, agora crescida e uma personagem importante no filme. O bicho cresceu e não parou mais, ignorando a própria biologia, após anos consumindo gatos e cachorros mortos, entupidos de drogas experimentais.
Na primeira parte do filme, enquanto o monstro está confinado no subsolo de Chicago, o falecido ator Robert Forster reina no papel principal do detetive David Madison. Ele é o policial que em pouco tempo estabelece um contato acidental com o dono da Pet Shop, é designado para o caso dos corpos no esgoto e… por um incidente controverso no passado, também nos mostra que não é um profissional aceito pelos colegas. Todos têm um certo medo e evitam trabalhar com Madison, então quando ele retorna de uma investigação, com uma história ridícula sobre um monstro gigante, para justificar o desaparecimento do novato que foi com ele, o lance nem é sobre a necessidade de um exame de vista urgente no relator da ocorrência, mas sim a desconfiança de todo o departamento sobre a índole do detetive. As boas notícias para Madison, são que o filme é curto, com pouco tempo para picuinhas e Marisa, especialista em répteis, chega para ajudar e se transformar em um inapropriado interesse amoroso. Após incontestáveis evidências conseguidas clandestinamente, neste Blockbuster disfarçado de filme B e cheio de personagens secundários, até a prefeitura se envolve na caçada, com poder de fogo adequado, mas se há uma coisa que os americanos precisam aprender com os japoneses, é que predadores mutantes precisam tomar o protagonismo e divar absolutos em suas próprias histórias, muito antes de serem vencidos, dando um banho de sangue nas telas que não deixa dúvidas sobre quem é a verdadeira estrela do filme.

O bicho não é tão grande quanto eu me lembrava e talvez minha memória não seja tudo isso… mas a verdade é que esta obra prima trouxe um das lendas urbanas mais improváveis da cultura americana, para o mundo do entretenimento em grande estilo, sem arrependimento algum. Na era dos efeitos práticos, o vilão ganhou vida do mesmo jeito que o tubarão de Spielberg, só que Steven teve um pouco mais de cautela para esconder os defeitos do boneco, das gerações que veriam o filme dele no futuro. De vez em quando, um animal de verdade é usado, em um cenário em escala menor do que a real e o resultado é uma fofura! No enredo maluco, os diálogos são bem sucedidos ao provocar risadas intencionais e as aparições do monstro, das parciais entre as sombras às mais flagrantes, produzem realmente um efeito apavorante. A sequência do jacaré invadindo uma festa de casamento luxuosa, cheia de gente chocada (ou imbecil) demais para correr na direção contrária, nunca envelhecerá! O ritmo do filme é agradavelmente acelerado, mas é a vagarosidade da locomoção do gigante, como se fosse um vilão de slasher de auto confiança inabalável, porque ele sempre alcança a vítima, que faz de “aligueitor” o monstro oficial da terra do tio Sam.
