Era bom o suficiente para virar uma franquia, para início de conversa? Ciente de que o filme de 2018 está na lista de melhores daquele ano deste blog, não podemos ignorar que a proposta inicial, vinda de um livro que eu li e não amei, já não era exatamente livre de questionamentos, sobre até onde nossa suspensão de descrença pode ser testada. Com um pé no respeitadíssimo Ensaio Sobre a Cegueira e outro pé no completamente descartável Fim dos Tempos (de Shyamalan), Bird Box não era sinônimo de qualidade absoluta, mas foi sem dúvidas um grande sucesso, permanecendo como uma obra digna de lembrança e menção, com suas boas atuações, sua execução competente e sua imediatamente reconhecível identidade visual, ainda que a falta de explicações sobre tudo o que envolve a força por trás do apocalipse, segure a produção na categoria de “mediana”. Com toda a sinceridade, a sequência gigante da queda de Barcelona nesta nova versão da história, apresentada com a pompa de uma filmagem milionária, já faz deste algo digno de conferência, mesmo que no apanhado geral o filme se posicione abaixo da média alcançada pelo primeiro.

Foi uma escolha no mínimo curiosa, mostrar o lado dos vilões, nesta história. É um risco maior do que muitas continuações ousariam correr, pelo menos, mas sem um roteiro sólido, é só atrevimento e pouca gratificação. A base é a mesma do protagonizado por Sandra Bullock. Em um dia terrível, uma força estranha, invisível para o público, surge no planeta provocando suicídios em massa. Em pouco tempo, a humanidade entra em colapso, com alguns resistentes sobrevivendo das duas únicas maneiras possíveis: em lugares completamente fechados, ou ao ar livre com vendas nos olhos. Não podendo ver as criaturas, para não sofrer o mesmo destino de tanta gente, eles ficam expostos para indivíduos que não precisam se esconder. Se o encontro com os seres sem forma, é capaz de enlouquecer uma pessoa sã em poucos segundos, os já comprometidos mentalmente se encontram em uma vantagem monstruosa. Bird Box: Barcelona, é a história de um desses malucos. Sebastián está fazendo o mesmo que o impostor do primeiro filme fez. Se infiltrando em pequenas e precárias comunidades, com gente faminta e apavorada, para sabotar suas defesas e providenciar a mesma paz de espírito que ele sente. O grande trabalho deste filme, é fazer deste personagem alguém com quem podemos nos identificar. 

Deixando de lado os loucos do primeiro filme, que já eram claramente criminosos insanos antes da invasão, seja ela alienígena ou demoníaca, e deixando também o louco do segundo filme, que é um cara traumatizado com ideias absurdas na cabeça… Qual é o objetivo das criaturas com tanta destruição? Para que servem tantos suicídios? Este segundo filme não chega a esclarecer uma grande dúvida que nasceu no primeiro, mas oferece uma teoria sobre como estes seres nos dominam com tanta facilidade. Não é uma suposição definitiva, a que sugere que o efeito dos monstros seja involuntário, como uma reação química e infelizmente ela vai de encontro ao pouco que podemos deduzir sobre intenções, quando mesmo sem serem vistas, as criaturas continuam induzindo pessoas a removerem suas vendas, mas é melhor do que a justificativa na cabeça de Sebastián, que o fez trocar o lado das vítimas pelo lado dos cúmplices. 

Os flashbacks contínuos, quase todos sobre a jornada de Sebastián rumo à virada de casaca, têm a tarefa de provocar nossa simpatia, mostrando um homem que perdeu tudo, inclusive a própria cabeça. Outra jornada no filme, literal e acontecendo no tempo atual, dificulta o trabalho destes flashbacks, que já não é fácil. Um grupo de sobreviventes, escondido em um abrigo da época da Guerra Civil Espanhola, possui o privilégio da proteção, mas a desvantagem da desinformação, que os vendados na superfície já sabem, sobre o fã clube das criaturas. O plano, que Sebastián apoia totalmente, é deslocar a turma pela cidade, com os olhos tampados e cachorros como guias (também vendados), em direção a um possível santuário, idealizado a partir do depoimento de uma criança estrangeira, em busca de uma mãe que pode ter morrido há muito tempo. É um plano suicida, mas, a maioria das ações nesta história também são e mesmo sendo um argumento que se sustenta somente na fé, é a partir dele que ganhamos uma verdadeira aventura urbana, muito interessante de acompanhar, pelas soluções que o grupo encontra para navegar pela cidade com segurança, estando tão limitados. O problema para nós do público, é que a esperança de dias melhores não está somente comprometida pela incerteza do resultado da viagem. A presença de um traidor no grupo, nos força a não criar vínculos e somente aguardar o fracasso da missão. 

Nunca torcemos pelo protagonista, mas isto não é um problema inédito. Não é a primeira vez que o terror segue o ponto de vista do vilão. O difícil de aceitar, é o quanto ele é prestativo e preocupado com o bem-estar, de gente que ele planeja matar. Às vezes parece que ele quer mudar de time. Às vezes parece que Sebastián desperdiça oportunidades perfeitas de “libertar a alma” de seus companheiros, prolongando uma caminhada que ele não tem intenção de finalizar. Se ele está indo em direção ao arrependimento, pela convivência com gente tão traumatizada quanto ele, é ainda pior, porque além de ser uma mudança superficial, ela enfraquece a proposta que já era duvidosa, evidenciando o quanto ela era insuficiente para ser mantida no filme do início ao fim. De qualquer maneira, Sebastián em um estado permanente ou temporário de loucura, já fez tantos estragos que sua redenção seria impossível. Mas talvez o ponto do filme, não tenha sido tentar forçar o perdão para os imperdoáveis e sim introduzir uma outra categoria de sobreviventes neste universo. Uma terceira via, que possibilitaria pela primeira vez um combate real às criaturas. 

No entanto, o caminho para a superação da loucura, que transformaria traidores em aliados novamente, precisa contar com a vontade do maluco, que já não poderia ser doido de nascença e ainda assim, só aconteceria depois de uma contagem inaceitável de corpos. O filme não é de se jogar fora, só um pouco mais exigente do acolhimento do público do que o primeiro foi. As cenas de surtos coletivos em filmes apocalípticos, são sempre valiosas. Aquela correria nas ruas, é uma ótima fonte de adrenalina, começando com os primeiros indícios do problema, em algum país distante na televisão, antes de estourar com tudo em cima dos personagens principais. É gratificante sair dos Estados Unidos, para ver tanto o surgimento da pandemia, quanto o resultado dela em ruas com uma aparência menos americana e mais européia. Neste aspecto, a versão de Barcelona é mais caótica, mais longa e… melhor! O original dá muito mais medo e infelizmente medo não é algo que acontece com frequência aqui. Algo sobre estar de mãos dadas com o perigo constantemente, amortecendo certos sentimentos e estragando diversas surpresas, eu presumo. No geral é uma boa ideia para o início de uma franquia e na boa, que venham outras ideias, mais ousadas, mesmo que o resultado seja fraco.