No paradisíaco destino fictício chamado Li Tolqa, o casal só está saindo do quarto para o café da manhã cortesia, mas a trilha é de combate. Enquanto tentamos entender as dimensões do resort, como para que lado ficam os guarda-sóis e em que seção estão as quadras de tênis, a câmera promete e não cumpre sua função, pairando no alto de vários pontos do estabelecimento, mas distorcendo a perspectiva constantemente, para que o público não tenha informações básicas de localização. É só um leve atraso para o desjejum, causado por uma crise em fase de crescimento no relacionamento, nada demais, mas já somos avisados que o desastre está sorrateiramente em andamento. Quando a música acaba e o enquadramento se estabiliza, somos apresentados à banda que irá animar a refeição, só que ainda não dá para pensar em relaxar. Usando máscaras indutoras de tripo e de outras fobias, bem ao gosto do pai do diretor (e eu até encaro estas coisas bizarras com naturalidade, mas nunca no café da manhã), fica explícito que aquele destino de férias, tem o potencial de oferecer uma experiência única aos seus hóspedes, mas não no sentido positivo. O café mal começa e os dois se separam, indo cada um curtir uma atração diferente, como se os corpos cedessem logo cedo, à vontade das mentes afastadas. No casamento, o conflito é introvertido, mas no país em miséria, sempre recebendo visitantes podres de ricos e podres de tudo, a guerra já foi declarada. Engana-se porém, quem pensa que o dinheiro só gera violência pela falta. 

Na enorme propriedade cercada, digamos apenas, para manter a paz, James e Em, aceitam o convite para jantar de Gabi e Alban, outro casal em férias com uma dinâmica matrimonial semelhante. James (Alexander Skarsgård) e Gabi (Mia Goth) são profissionais que, para continuar trabalhando no que amam, precisam de cônjuges que paguem as contas. A atração entre os dois é evidente desde o princípio, com Gabi se declarando uma grande fã do escritor, que não publica nada novo há seis anos. Ninguém aqui queria abraçar uma idéia, que já começa no adultério e termina com o fim do sustento de artistas sem um plano B, mas nem há tempo para torcer o nariz. A tragédia que os aguarda no segundo encontro, fora da área monitorada que separa os nobres estrangeiros dos plebeus locais, é uma encrenca muito além da infidelidade e ainda mais tensa foi a solução encontrada, para problemas causados por desejos reprováveis, falta de empatia e embriaguez.

Infinity Pool não constrói sua narrativa com calma, porque tem um momento exato em que a linha que separa terrores habituais de terrores de excentricidade extrema é cruzada. Não é um ponto sem retorno para os personagens, já que a maioria não têm dificuldade para continuar na normalidade, depois de participar de certos acontecimentos, mas para o público, uma escolha se torna inevitável. Continuamos a investir no filme com o caminho imaginativo que ele resolveu trilhar, sem que a trilha sonora ou os giros de câmera nos tivessem preparado para tanta viagem, ou cortamos o barato da fantasia no mesmo instante e vamos assistir a alguma outra coisa? Tá na cara que é uma alegoria… para uma coisa super importante… penas bárbaras estabelecidas para crimes em países pouco civilizados… proletariado versus classe dominante… uma representação da falta de consequências, para uma pequena porção da nossa sociedade, talvez… sim, é uma fantasia de terror do diretor Brandon Cronenberg, que herdou do pai David o gosto por histórias perturbadoras, que sempre apelam para imagens grotescas; mas o problema é que este conjunto de simbologias, criativas em sua maior parte, exige do público um alto nível de suspensão de descrença, em troca de uma mensagem, ou de uma série de mensagens… mornas, mesmo que eternamente relevantes, que estão longe de provocar a polêmica que o diretor acredita estar causando. 

Um incidente altera James para sempre, despertando em nós perguntas, com base nos estranhos close ups de partes de corpos, antes de depois do evento, sobre o quão mudado o escritor realmente se encontra. Chegando no paraíso como um criador sem inspiração, ele ganha uma nova musa (muito talentosa e cada vez mais presente no cinema de terror), mas escrever que é bom, nada! Constantemente sob a influência de Gabi, de novos e perigosos amigos e de substâncias alucinógenas, seus pés não pisam mais no chão e ele flutua, enquanto não consegue mais parar de fazer besteira. Um ponto fortíssimo para mim, é que o filme permanece completamente imprevisível, do início ao fim. Toda vez que a gente acha que dá para ver de longe, os resultados de alguma péssima decisão, tomamos uma bela rasteira, mas eu também reconheço que já tenho uma queda pelo inesperado, então, não é porque o público tem a predisposição a cair nestas rasteiras, ou se surpreende com facilidade, que o roteiro seja consistente.  

Skarsgård está muito bem e o filme entretém, de verdade e eu não me arrependo de ter descido nesta toca de coelho, mas é também uma experiência cansativa, com muitas sequências abstratas, de necessidade duvidosa e cenas que poderiam ser bem mais curtas. Os donos do resort tiveram o trabalho de construir uma mini cidade, para que os hóspedes tivessem variedade de passeios sem sair da propriedade. Tem até diversos estabelecimentos “especializados” em um determinado tipo de cozinha. Um funcionário do hotel acaba colocando esta artificialidade em evidência, trabalhando de dia em um restaurante e em outro temático, que deveria ser parte da cidade, na hora do jantar, algo que James acha hilário e degradante. O interessante é que ele se sente especial o suficiente para julgar o que é real e o que é fraude, até que algumas situações lhe devolvam a humildade perdida. A metáfora do resort pode ser a do ambiente fechado que tem de tudo, sendo o suficiente para a maioria das pessoas que procuram segurança e tranquilidade, enquanto os rebeldes preferem arriscar a sorte do lado de fora, buscando encrenca e pagando o pedágio pela autenticidade. O negócio é que em um certo momento, um adulto é amamentado em público, como se fosse um bebê, então, quero dizer, vai saber o que este filme quer com a gente.