Os números de assassinatos e desaparecimentos anuais no México, estampados no texto de abertura do filme, são realmente impressionantes. O impacto cultural, mostrado como uma mistura de pânico e condicionamento, em uma sala de aula na qual a molecada chora, enquanto sabe exatamente o que fazer durante mais um tiroteio, é ainda mais impressionante. Minutos depois, a classe é dispensada e o clima é o da vida que segue. O corpo na calçada em frente à escola, é só mais um que os alunos aprenderam a ignorar, que a imprensa não irá divulgar e a polícia não vai investigar. Já existe um pseudo-entendimento de que se trata de uma guerra entre facções criminosas. Amanhã tem mais, em outra escola quem sabe. Por incrível que pareça, mortes e desaparecimentos de crianças não entram nos dados oficiais, mas não porque elas não são importantes. A maioria é efeito colateral do extermínio de traidores do tráfico. O filme é uma fantasia de terror, com base na realidade atual do país, sobre o quanto é perfeitamente plausível, que o governo não consiga fechar a conta, acompanhando os números corretos e totais da matança.

É impossível não associar esta fábula à outra bem famosa sobre “garotos perdidos”, vivendo por conta própria até que a chegada de uma figura materna em um corpo infantil, balance a dinâmica do grupo para sempre. O enredo os descreve como uma gangue, mas a mais velha não tem nem tamanho para ficar na rua sozinha de noite. A Wendy deste conto se chama Estrella, uma menina que chega da escola uma tarde com seu uniforme, suas lições de casa, mas não há ninguém para recebê-la. Ela demora alguns dias solitários para entender o que aconteceu, porque não há explicação ou prestação de contas de ninguém. Eu me pergunto como é possível que nem vizinhos acudam, sendo que a criança está sozinha e as autoridades nem apareçam, já que não há denúncia sobre o desaparecimento, mas a verdade é que ninguém se arriscaria a acolher o familiar de um provável desafeto de bandido. Sem nenhum aviso ou preparação, ela vira estatística, ou nem isso e como na história original, o primeiro contato é com Peter Pan, que aqui se chama “Shine”, um menino de rua com pouca idade, mas muita sede de vingança contra o cartel. Ele é o líder do grupo de meninos na mesma má-sorte, ou era até a mãe Estrella chegar.

Os Tigres Não Têm Medo é um filme muito bonito… e apavorante, só que as aparições sobrenaturais presentes desde o início, não são nem páreo para o medo gerado pelo que é visível por todos. Nunca tinha passado pela minha cabeça, por exemplo, que os garotos perdidos são só garotos, porque as garotas chamam a atenção de muitos adultos bem cedo, não demorando para serem recolhidas das ruas à força. Toda vez que a mãe morta aparece, sugestivamente envolta em plástico, para avisar Estrella de que o mal se aproxima, ela até assusta, mas não tanto quanto o perigo de carne, osso e arma estilizada pendurada na cintura. Bom, existe sim uma sequência de intenções incertas, em que as estatísticas retornam do mundo dos mortos, exigindo reparações e eu admito que ela é bem sinistra. O foco no entanto, é falar dos necessitados que ainda respiram, com uma linguagem quase infantil, na qual as pelúcias e desenhos ganham vida, mas sangue também tem vontade própria.

Esteticamente, o filme é impecável e esta característica chama ainda mais nossa atenção, quando observamos que estamos acompanhando crianças maltrapilhas, caminhando por ruas sujas e mal iluminadas. Seria um desperdício não admirar o trabalho magnífico de direção de arte e fotografia, que consegue extrair cenas que parecem pinturas, das locações mais improváveis. É um reflexo dos órfãos e seus espíritos inquebráveis. Os atores são magníficos, com interpretações realistas e cheias de doçura. Mesmo sob circunstâncias tão sombrias, os personagens mantêm suas essências, não permitindo que a dureza da vida no abandono, force um crescimento antes do tempo. Eles se comportam como uma família, cuidando uns dos outros com preocupação e solidariedade. Estão sempre brincando, como se não tivessem problemas, algo que só crianças conseguem fazer. Esquecem completamente, até que sejam lembrados. 

Não é a Terra do Nunca, mas parece ser, de tanto poder que o Capitão Gancho possui e se ele for derrotado, outro assume o seu lugar e o poder é transferido, como uma força sobrenatural que a população simplesmente aceita. Nela, estão inclusas autoridades políticas e policiais, que se tornam inúteis. É um país gigantesco, vivendo em um clima de cidade pequena. Para garantir sua admissão na turma, que já corre um risco enorme aceitando uma menina, Estrella precisa executar uma tarefa muito perigosa. Ela é acidentalmente bem-sucedida, mas o acontecimento dá início a uma caçada por parte de criminosos de grande porte, contra o pequeno grupo que se vê completamente isolado na própria defesa. A gente pode até considerar a ajuda que chega em forma de espectros e de crenças inocentes, mas é algo intencionalmente limitado e desproporcional, contra vilões que beiram a fantasia por serem tão blindados. É um filme de cortar o coração, de abrir os olhos e de provocar medos reais, que não hesitamos em trocar por medos imaginários. Imperdível!